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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Vai pensando aí

Tenho alguns posts cozinhando antes de poderem entrar aqui, e geralmente eles ficam bastante tempo no forno até estarem prontos. Mas hoje descobri que é o Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto, e resolvi fazer um post relâmpago aqui tocando o assunto.

Sempre que eu ouço falar em legalização do aborto, eu noto que praticamente não existe discussão sobre isso. Não existe discussão no mesmo sentido em que não existe discussão acerca do casamento igualitário, ou seja: existem muitas pessoas a favor e muitas pessoas contra e elas conversam sobre o assunto, mas em ambos os casos eu só vejo argumentos razoáveis de um lado. Os principais “argumentos” que eu escuto em defesa da criminalização do aborto são dois:

1 – Que a legalização levaria a uma “carnificina de bebês”, com as mulheres passando a usar o aborto em vez de métodos contraceptivos. Pessoas que dizem isso estão ignorando duas realidades óbvias – a realidade de que em todos os zilhões de países onde o aborto é legal isso não aconteceu e a realidade de que um aborto mesmo realizado em condições de perfeita higiene e segurança é significativamente menos agradável que um passeio no parque.

2 – Que a vida começa na concepção e portanto aborto é assassinato. Esse talvez pudesse até ser um argumento válido numa discussão de outro tipo sobre o aborto. Porém, numa discussão sobre sua legalidade, convém lembrar que esse é um argumento religioso disfarçado e que num Estado laico qualquer proibição exige um forte argumento secular. Tirando a idéia religiosa de que um embrião ou feto tem alma, não há nenhuma razão para considerar um organismo que ainda não tem sistema nervoso central desenvolvido, ainda não começou a ser socializado e ainda não é capaz de sobreviver a não ser dentro de outro organismo deva ser considerado como possuidor dos mesmos direitos que uma pessoa qualquer.

É bom dizer também que o que está em questão não é se alguma mulher específica ou mulheres em geral devem ou não devem fazer aborto em que circinstâncias, as únicas coisa em questão são se mulheres que fazem aborto devem ser consideradas criminosas ou não.

Legalização do aborto é uma questão de saúde da mulher, porque permitiria que todas tivessem acesso a esse tipo de procedimento através do sistema público de saúde (ao contrário de hoje, quando quem tem dinheiro tem acesso e quem não tem arrisca a vida) e é também uma questão de autonomia feminina, porque todas as pessoas têm de ter o direito a decidir se e quando vão se reproduzir e o que farão com seus corpos.

Mas apesar de ser uma questão feminina, o poder de decisão sobre ela ainda está desproporcionalmente nas mãos de homens, que hoje representam 91% da Câmara dos Deputados e 86% do Senado. E, claro, para homens, que nunca precisaram nem vão precisar escolher se querem e precisam ou não fazer um aborto e que apesar de às vezes terem filhos não planejados nunca precisaram nem precisariam decidir entre a carreira e os filhos, é fácil demais decidir que aborto é crime. Fácil demais não ter empatia por quem recorre ao procedimento.

Portanto, aproveitando as eleições que tão chegando, vão pensando aí: homens sozinhos são capazes de tomar todas as decisões importantes referentes à legislação? É possível ter uma sociedade verdadeiramente democrática cujos representantes eleitos são um grupo razoavelmente homogêneo com relação a classe social, raça, orientação sexual e gênero?

P.S.: O vídeo do post.

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Be the change

Faz um tempão que eu penso em comentar aqui aquele caso da Eliza, que foi provavelmente assassinada pelo amante. Digo provavelmente porque não sei como anda, se teve resultado, se o cara foi condenado ou não, não tenho acompanhado o que se passa ou passou com esse caso, só sei que da última vez que vi as evidências estavam bastante contra ele. Eu sei que essa história já é bem antiga, e que montes de gente já falaram montes de coisas sobre isso, mas mesmo assim ainda acho relevante – porque esse foi só um de um estereótipo de assassinatos que se repete, e a reação que eu vi das pessoas também foi estereotípica.

Uma das primeiras coisas que eu escutava sempre que se falava na Eliza era alguém questionando a ética dela. Diziam que ela tinha ficado grávida de propósito, que ela era atriz de filme pornô, que ela saía com vários jogadores de futebol, que participava de orgias, que era amante de um homem casado, etc. É interessante como as pessoas apagam totalmente a responsabilidade masculina para jogar tudo nas costas da mulher. Ela ficou grávida de propósito – pode ser, mas sozinha? O cara não fez nada? Ele não concordou em fazer sexo com ela? Ele não sabia que tinha que usar camsinha? Coitado! Ela saía com vários jogadores de futebol – legal, e eles não queriam sair com ela? Ela os obrigava? Ela participava de orgias – ok, e ela participava sozinha? Não estavam ali mulheres e homens que todos tinham concordado em participar? Ela era amante de um homem casado – sim, e ele não era também amante dela? Ela tinha algum compromisso com a esposa dele? O cara não escolheu livremente sair com ela mesmo sendo casado? Realmente não entendo.  E claro, por trás dessas ‘acusações’ todas qual é a idéia? O que é anti-ético nisso tudo? Aparentemente a única opção é que as pessoas acham anti-ético uma mulher gostar de ou praticar sexo livre e consensual. E mesmo que as acusações fossem sérias e ela fosse uma péssima pessoa, isso não tira de ninguém o direito a não ser assassinada. Apesar disso eu escutei muito coisas do tipo ‘Ela não merecia isso, claro, mas também ela era assim, assado e blá blá blá’. Mas? Que mas é esse? Ela não merecia isso E ela era assim, assado e blá blá blá. E. Conjunção aditiva, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Como quer que ela fosse, isso não altera nenhum centavo do fato de que ela não merecia ser assassinada.

Depois vinha sempre o pessoal que achava que ok, tudo bem, claro que ninguém merece ser assassinada, mas  (de novo mas) pô, a culpa era um pouquinho dela também, né? Afinal, ela não sabia que o cara era inclinado à violência? Ele já tinha até ameaçado ela! Ela devia ter se afastado mas não, claramente ela deixou isso acontecer. O que eu tenho a dizer sobre isso é muito simples: nunca, em nenhuma hipótese, cabem críticas a nenhuma pessoa com base em comportamentos de segurança (pessoal, claro, a coisa muda de figura quando está envolvida a segurança de outros) que ela adotou ou deixou de adotar. E isso por dois motivos: O primeiro é que segurança não é de graça. Qualquer coisa que uma pessoa fizer para aumentar sua segurança exige um sacrifício de liberdade. E como não existe segurança perfeita, essa escolha nunca é óbvia. Cada pessoa tem que decidir por si quanta liberdade está disposta a sacrificar por quanto de segurança, e nesse ponto não existe nenhuma escolha errada. O outro motivo é que criticar comportamentos (ou falta) de segurança permite que se culpe uma pessoa por tudo (nesse ponto de novo está se apagando a responsabilidade do homem para jogá-la toda nas costas da mulher). Claro, como a segurança nunca é completa sempre há alguma falha a ser criticada. E depois que já aconteceu a catástrofe é muito fácil ver qual foi. Dizer agora que ‘ela não devia ter feito isso ou aquilo’ é mole, a gente já sabe que fazer isso ou aquilo fez parte da cadeia de eventos que terminou em tragédia. Só que antes ninguém tinha como saber. A única coisa que impede uma pessoa de ser assassinada é não cruzar com assassinos, e os assassinos não usam crachá.

Mas acho que essas duas questões estão subordinadas a uma questão central, que é: quando um homem assassina uma mulher, as pessoas se importam muito em discutir a vítima. Mas se o objetivo for entender a situação ou contribuir para melhorá-la, o que tem que ser discutido é o assassino. Só que quase sempre que alguém resolve falar nele, é para dizer que é um monstro. Assim é fácil demais, chama-se o cara de monstro e fica tudo lindamente resolvido – monstros fazem coisas monstruosas, ué, não há nada que ninguém possa fazer contra isso, lavo as minhas mãos e fim de papo. Só que eu não compro esse discurso, eu não acho que ele seja um monstro, acho que é uma pessoa de verdade. A pergunta importante é: por quê pessoas de verdade fazem coisas monstruosas? Por quê homens de verdade matam mulheres de verdade? Isso tá ligado a nossos ideais culturais que põem a mulher num papel passivo e o homem num papel ativo? Que vêem a mulher ainda em muitos sentidos como posse? Que dizem que homem tem que ser agressivo, que não pode levar desaforo pra casa, que não pode deixar que uma mulher o engane? Essas coisas é que eu quero discutir quando acontece um caso desses. Mas quero discuti-las sem tirar o corpo fora, quero perguntar também qual é o meu papel na manutenção desses ideais. Quero saber qual é minha participação pessoal na produção social de assassinos.

P.S.: A citação do post.

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Reverse racism

Ultimamente tenho conversado um bocado sobre cotas raciais nas universidades públicas. Descobri que entre as pessoas com quem tenho contato regular mais próximo quase ninguém é a favor. Aliás, de todas as pessoas com quem falei sobre o assunto, nenhuma é a favor. Tá certo que entre as pessoas com quem tenho contato próximo regular a maioria é branca, mas mesmo assim eu esperava que alguém concordasse comigo. Eu sou a favor das cotas porque acho que a quantidade desproporcionalmente baixa de pessoas negras na universidade pública é ao mesmo tempo um sintoma e uma causa de racismo. As pessoas negras têm desvantagens sociais que entre outras coisas limitam seu acesso à educação superior, e isso contribui para reforçar estereótipos raciais que geram mais desvantagens sociais ainda. Só que a maioria das pessoas contrárias às cotas não acredita que exista racismo no Brasil, embora os argumentos que eu ouço nesse sentido façam parecer que a pessoa acha isso mas não dedicou quase nenhum tempo ou atenção a pensar no assunto.

O primeiro argumento geralmente é algo como ‘Eu não sou racista! Não sou, não sou, não sou!’ O que claro, não é um argumento, mas mostra duas coisas: mostra que a pessoa se sente pessoalmente atacada quando se fala sobre racismo e mostra que a pessoa acha que racismo é um problema individual. Bom, não me interessa quem é ou não é racista, aliás, eu nem sei o que isso significa. O que me interessa é discutir racismo sistemático – quais são as condições sociais que geram desvantagem às pessoas negras – e o que podemos fazer para desconstruí-lo.

Outro argumento é do tipo ‘A biologia já provou que não existe diferença genética significativa entre negros e brancos, logo não existe raça e não pode existir racismo’. Tá, só faltou lembrar que ninguém discute racismo do ponto de vista biológico. Raça e racismo são conceitos sociológicos, ninguém anda por aí fazendo testes de DNA nas pessoas para decidir se discrimina ou não discrimina. O que as pessoas fazem é olhar para uma pessoa, percebê-la como branca ou como negra e agir de acordo. O racismo não é menos real nem tem menos efeitos só porque não se justifica geneticamente.

Tem também o meu argumento preferido, que é ‘Na verdade os portugueses não iam lá no interior da África caçar negros para trazer ao Brasil, eles negociavam com negros que viviam na costa a compra de seus prisioneiros’. Esse é meu preferido porque, além de não ter nada a ver com o assunto (ou alguém entende como algo que alguns negros fizeram ou não fizeram na África há centenas de anos interfere no racismo do Brasil atual?), ainda tenta insinuar algo que muita gente pensa e não tem coragem de dizer – que o racismo na verdade é culpa dos negros. Claro! Se não fossem os negros que venderam outros negros aos portugueses, esses outros negros não teriam sido escravos no Brasil e seus descendentes não seriam vítimas de racismo aqui hoje. Todos os brancos já podem descansar tranqüilos, ufa!

E tem o pessoal que diz que o que existe é preconceito de classe, não de raça, e que por uma incrível coincidência é que estão os negros super-representados nas classes ditas mais baixas. Geralmente a pessoa acompanha essa idéia de uma prova irrefutável na forma de pergunta: quem é mais discriminado – a pessoa negra que está bem vestida ou a branca maltrapilha? Ok, mas se vale comparar ao mesmo tempo duas variáveis diferentes com efeitos opostos, eu também posso provar coisas interessantes: Experimente deixar a luz de casa apagada durante o dia e quando anoitecer, acenda. Depois responda – estava mais claro de dia com a luz apagada ou de noite com a luz acesa? Se era de dia, já pode economizar na conta de luz, está provado que as lâmpadas não funcionam.

Continuando com esse argumento de que o preconceito é na verdade de classe, eu poderia buscar aqui estatísticas que desmentiriam isso, mas fico com preguiça. Então vou fazer umas perguntinhas: Uma pessoa está lendo uma história e na história há um médico – de que cor ela imagina o médico? Na história também há um assaltante – de que cor ela imagina o assaltante? Quantas vezes uma pessoa branca é preterida a uma vaga de emprego e tem dúvidas se houve motivação racial? E uma pessoa negra? Quando um produto diz ser ‘cor de pele’, de que cor é o produto? O tipo de cabelo chamado ‘bom’ é prevalente em que raça? E o chamado ‘ruim’? Se uma pessoa branca for a uma entrevista de emprego com seu cabelo na forma natural, isso pode contar contra ela? E se a pessoa for negra? Ou então esqueça todas essas perguntinhas e escute o conto de fadas:

Era uma vez um país idêntico ao Brasil, só que existia racismo e existia um deus benévolo e onipotente. Daí deus, que ficava triste com o racismo, resolveu agitar a varinha e fazê-lo desaparecer magicamente da cabeça das pessoas. Só que como ela tinha espírito científico, decidiu deixar todos os outros preconceitos intactos, para ver o que aconteceria. Também deixou intactas as estatísticas – ainda havia muito mais pessoas negras entre as classes mais ‘baixas’, ainda havia muito mais pessoas negras entre as com menos escolaridade, ainda havia muito mais pessoas negras entre a população carcerária, ainda havia muito mais pessoas brancas entre as que têm um negócio ou um alto cargo em alguma empresa. E aí, as pessoas desse país, que como todas as outras pessoas eram muito boas em identificar padrões, começaram a perceber que uma pessoa de baixa escolaridade formal tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa que já tinha sido presa tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa de pouca renda tinha grande chance de ser negra. E tendo preconceitos contra todos esses grupos, as pessoas começaram a ficar griladas. Também nesse país se escutava muito esse discurso que se escuta aqui, de que ‘vence’ na vida quem tem méritos próprios, que qualquer pessoa consegue ser bem sucedida através do seu próprio esforço, e então os grilos começaram a cantar um pouco mais alto. Daí quando alguém (provavelmente branco) ia contratar uma pessoa, como se faz aqui também selecionava primeiro pelo currículo. Mas nunca era suficiente, porque entre tantos candidatos para uma vaga, havia sempre algumas pessoas igualmente qualificadas, então os melhores eram chamados a entrevista. E na entrevista eram preferidos habitualmente candidatos brancos. Não porque o entrevistador pensasse que negros eram inferiores a brancos, claro que não! Mas entre um negro e um branco os grilos faziam cri-cri e a simpatia era inconscientemente maior pelo branco. O entrevistador pensava ‘não tem nada a ver com a cor da pele, mas esse sujeito me inspira mais confiança que o outro, não sei por quê’. E nas escolas também os professores e professoras escutavam o cri-cri e sem querer davam mais atenção e estimulavam mais os alunos e alunas brancas, e quando elas eram alunas ruins, tinham mais paciência com elas, e desistiam depois de mais tentativas. E aí os adultos negros eram aprovados para trabalhos piores que os brancos, e ganhavam menos, e tinham menos condições de pôr seus filhos em boas escolas, e as crianças negras tinham desempenho escolar pior que as brancas, e paravam de estudar mais cedo, e se tornavam adultos menos qualificados que iam ser de novo preteridos nas entrevistas de emprego, e assim os negros continuaram em maioria entre grupos marginalizados. E deus viu que até os deuses inventados têm limite a sua onipotência, e que acabar com o racismo daquele jeito, sem fazer mudanças sociais, na verdade não acabava com racismo nenhum.

Enfim, quando discordam das cotas por questões de implementação eu até concordo, porque as cotas são mesmo uma solução cheia de problemas. Mas só concordo se apresentarem outra solução melhor, porque entre o problema original inteirinho e uma solução de meia tigela, eu prefiro a solução. E quando discordam por questão de princípio, porque o que existe é classismo e não racismo, eu respondo: Não é assim por dois motivos. Em primeiro lugar não é porque não é. Em segundo lugar não é porque, se fosse, já não seria.

P.S.: Pra terminar, ao argumento de que instituir cotas é racismo ao contrário, deixo que respondam por mim os quadrinhos do post.

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Água

Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho nadando no sentido contrário.

O peixe velho diz: ‘Bom dia! Como é que está a água hoje?’

Pouco depois um dos peixes jovens se vira pro outro e pergunta: ‘Mas que diabos é água?’

A Lola, que tem um dos melhores blogs feministas brasileiros, está agora promovendo um concurso de blogueiras com o tema ‘A origem do meu feminismo’. Como ela abriu a possibilidade para homens escreverem um guest post sobre o assunto, decidi mandar esse texto pra ela e já vou publicando por aqui:

Antes ela até já tinha me perguntado se eu queria escrever um guest post falando sobre a descoberta dos meus privilégios e eu disse que claro que sim, mas depois tentei e o texto não saiu, foi difícil pra mim escrever sobre isso. Mas aproveito a oportunidade para tentar de novo, porque esses temas para mim são o mesmo – a origem do meu feminismo é a descoberta dos meus privilégios. E não poderia ser de outra forma, porque descobrir que eu tenho vantagens sociais por ter características que eu não escolhi ter às custas das desvantagens de quem não as tem não me abre mais espaço para ficar em cima do muro – nesse contexto ser feminista é necessário. É antes de tudo uma questão humanista – é ser pela aceitação de cada pessoa exatamente como ela é; é ser pela igualdade de tratamento, de respeito, de oportunidade e de liberdade; é ser contra qualquer tipo de preconceito ou privilégio de um grupo sobre outro. Isso inclui não só machismo, homofobia e transfobia, que são todos preconceitos ligados a expectativas de como deve ser uma mulher e como deve ser um homem, mas também racismo, classismo e qualquer outro ismo que talvez não tenha nome, mas tem quem pratica e tem quem sofre.

Um dos meus motivos de dificuldade em falar sobre esse assunto é que eu sou feminista bem recente, talvez há um ou dois anos, e eu tenho vergonha de ter passado tanto tempo sem entender direito o que era preconceito, de ter passado tanto tempo cego aos meus privilégios. Há várias razões pra isso ter acontecido. Uma delas é que, como escrevi aqui no primeiro post, eu praticamente acertei na mega-sena dos privilégios. Eu basicamente não faço parte de nenhuma minoria. Eu sou, dentro do meu contexto social, o ser humano padrão. E é muito fácil e muito confortável ser o humano padrão, porque tudo está preparado pra mim, todo o mundo me trata bem à primeira vista. Eis aí um homem branco cisgênero heterossexual jovem magro etc., só pode ser boa gente! E como deve acontecer com a maioria das pessoas, não me lembro de ninguém ter tentado me ensinar a enxergar o ponto de vista dos outros, ou pelo menos não antes de eu entrar na faculdade de psicologia, claro que eu enxergava o mundo em cor de rosa.

Houve várias pessoas que eu li e com quem conversei que me influenciaram e foram me levando a descobrir meus privilégios, mas um momento em particular que eu considero o ponto de mutação me salta à memória pelo choque que me provocou. Era algo que eu estava lendo a respeito do uso em inglês da palavra ‘gay’ para dizer que algo é ruim, e o pessoal discutia se isso era um comportamento homofóbico ou não. Em determinado momento, alguém postou um link que tinha como título ‘lista de privilégios heterossexuais’, que era uma longa lista de pequenas coisas em que uma pessoa leva vantagem por ser heterossexual. Até aí não tinha caído a ficha, eu fui lendo a lista e pensando ‘não entendi o que querem dizer, são coisas tão banais, não dá para chamar isso de preconceito’. Mas um ponto lá me atingiu. Dizia ‘Eu não tenho que defender minha orientação sexual’. E eu pensei – as pessoas fazem coisas assim comigo por eu ter virado vegetariano – e pensei como eu me sentia mal com isso, não por ser algo gravíssimo, mas por ser sistemático, por ser tão freqüente as pessoas tentarem me provar que ser vegetariano não é lógico que mesmo que nenhuma pessoa faça por mal o efeito conjunto é algo como se repetissem sempre: nós somos normais e você é o outro, você não vale tanto quanto nós. E eu pensei como devia ser de esmigalhar o espírito de qualquer um ter que diariamente em várias pequenas coisas encontrar esse tipo de mensagem. E nesse momento eu caí em mim, reli a lista e percebi que no meu dia a dia eu contribuía em vários pontos com esse sistema violento. Sem me dar conta, e ainda achando que claro que não tinha preconceito nenhum contra pessoas homossexuais. A partir daí comecei a ler mais sobre preconceito, acabei conhecendo vários blogs feministas e notei que aí também eu tinha problemas, que eu ainda achava que havia coisas de homem e coisas de mulher, que eu ainda julgava mais uma mulher em função de sua aparência do que um homem, que eu via uma mulher que achava feia e automaticamente, meio sem querer, pensava ‘coitada! nunca vai arranjar namorado’ como se minha opinião fosse universal ou relevante, ou como se arranjar namorado fosse a coisa mais importante da vida de uma mulher. Assim com relação a cada minoria fui descobrindo uma nova série de privilégios e preconceitos que eu tinha, uma nova série de pequenas coisas que eu fazia de forma sistemática e que contribuíam para marginalizar um grupo de pessoas. E eu vi que a principal razão por eu não enxergar nenhum preconceito antes era que eu estava tão mergulhado nele que ele tinha sido normalizado, tinha virado o pano de fundo contra o qual eu via todas as coisas.

Eu me senti um bocado culpado por tudo isso, por não ter me dado conta antes, por ter sido tão violento com as pessoas, mas depois fui me dando conta que eu também não tinha escolhido ter privilégio nenhum, que não tinha escolhido construir essa cultura, que culpa não serve para nada a não ser gerar paralisia e abandonei esse sentimento. Aproveitando a leveza, decidi também pegar responsabilidade por isso tudo, porque agora sim, de olhos abertos eu podia escolher se queria contribuir para sustentar ou erodir aspectos culturais que são preconceituosos. Decidi que ser feminista pra dentro não era suficiente, que precisava ser também feminista pra fora e buscar (e continuo buscando e encontrando) formas de agir. Tem gente que me critica por isso, fala que eu não vou conseguir mudar nada, que isso é muito utópico. Ok, é claro que sei que eu como pessoa minúscula em comparação ao enorme monte de coisas erradas não tenho lá muito poder de mudança. Mas eu não preciso fazer coisas enormes, posso fazer coisas minúsculas. Assim como eu mudei radicalmente meu ponto de vista, outras pessoas também podem mudar. Às vezes só o que falta para uma pessoa mudar é ela escutar vozes dissonantes. E eu tenho voz.

P.S.: O discurso do post – original e, pra quem não lê inglês,  traduzido.

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No último post eu disse que não queria mais chamar nenhuma mulher de feia. Teve gente que ficou confusa, falou que não achava problema nenhum em chamar homem de feio, uma pessoa disse que achou o texto bonito mas ficou meio na dúvida se ainda podia chamar alguma coisa de bonita, várias pessoas me chamaram de radical e eu fiquei confuso também – mas será? Tô ou não tô exagerando? Daí me retirei daqui por um tempo e fiquei matutando esse assunto, a ver se chegava a alguma conclusão. E afinal decidi, de novo, que são coisas bastante diferentes chamar uma mulher de feia, um homem de feio e um objeto ou conceito de feio. A ver se me explico:

O primeiro ponto fundamental para estabelecer essa diferença é que as mulheres são minoria. Quando digo isso é claro que não estou falando no sentido numérico da palavra, já que a quantidade de mulheres é mais ou menos equivalente à de homens, mas sim que as mulheres têm menos poder social, ou seja menos respeito, menos oportunidade, menos etc. Não vou ficar tentando provar isso definitivamente, mas tenho algumas pequenas ilustrações:

– Existem algumas profissões que são consideradas tipicamente masculinas (ex.: engenheiro) e algumas outras que são consideradas tipicamente femininas (ex.: enfermeira). Coincidentemente ou não, as profissões consideradas masculinas costumam pagar mais e dar melhor status social que as profissões femininas. E se uma mulher quiser entrar numa profissão masculina ela pode, mas vai ter de se esforçar muito mais para provar que pode competir com os homens. Se um homem quiser entrar numa profissão feminina ele pode, mas vai estar se rebaixando socialmente.

– Existe uma diferença significativa entre o salário médio de uma mulher e de um homem, mesmo quando se compara mulher e homem com mesma idade e mesmo grau de instrução. A desvantagem é da mulher, claro (essa pesquisa estima a diferença brasileira em 30%). Em parte isso é causado pela escolha de carreira (já que as mulheres são incentivadas a seguir profissões femininas, que pagam menos e o contrário vale para os homens) mas não só, já que freqüentemente ainda as mulheres ganham menos que os homens mesmo desempenhando a mesma função. Está na câmara um projeto de lei proibindo isso, mas parece que ainda não foi aprovado.

– Ainda existe a expectativa geral de que as mulheres sejam exclusivamente responsáveis pelos serviços todos de manutenção da casa, quem tiver dúvida sobre isso só precisa assistir a comerciais de produtos de limpeza, que sempre trazem mulheres. Ou quase sempre, mas quando têm homens é para o homem mandar a mulher fazer o serviço.

Um dos aspectos dessa desvantagem social é a forma como as mulheres são muitas vezes tratadas mais como objetos que como pessoas, e uma das manifestações dessa objetificação é a cobrança permanente para que a mulher esteja bonita. Pense, por exemplo, em como uma mulher usar maquiagem, pintar o cabelo, se depilar etc. é equiparado a ‘se cuidar’, quando nenhuma exigência semelhante é feita aos homens. Ou pense em como quando um homem usa um sapato que lhe machuca o pé o sapato é considerado defeituoso, enquanto pra mulher machucar o pé é um sacrifício aceitável para estar bonita. Ou pense em quantas gírias existem para dizer que uma mulher é feia e como essas gírias são consideradas graves insultos, depois pense em quantas gírias existem para dizer que um homem é feio. Ou pense nessa historinha que vou contar:

Tinha um fórum de discussão que eu freqüentava que também era freqüentado por uma mulher que era super gente boa. Um dia ela contou que tinha muitos amigos virtuais, mas que tinha medo de encontrá-los cara a cara porque várias vezes ao encontrar um amigo virtual ele tinha dito que não podia ser amigo dela porque ela era feia demais e ele tinha medo de ser visto em sua companhia, que é que os outros iam pensar? E se pensassem que ele era namorado dela? Então o amigo abandonava ela.

Essa é uma situação que eu considero altamente violenta. Imagino como deve se sentir uma pessoa que escuta de um amigo que ela não tem aparência boa o bastante para ser vista em público perto dele. E que escuta isso repetidamente, a ponto de ter medo de encontrar os amigos. E eu não imagino isso acontecendo com um homem, porque pra mim o que possibilita esse tipo de situação é exatamente essa cultura de objetificação da mulher que diz que o valor dela está ligado à beleza. E quando eu chamo uma mulher de feia não importa tanto o que eu quero dizer, nem se minhas intenções são inofensivas, pra mim o que importa é que isso não pode ser dissociado dessa pressão cultural para as mulheres serem bonitas. Por seus efeitos e por suas premissas, eu considero essa parte da cultura violenta, então não, não quero mesmo chamar mulheres de feias.

E aproveitando o assunto de uso violento da linguagem, vou falar aqui de um programa que eu vi outro dia, que tá passando em não sei qual canal de TV por assinatura, chama America’s Next Top Model. Aparentemente a temporada que está sendo exibida agora no Brasil é uma temporada antiga, mas não importa, finge que é nova. No primeiro episódio desse que é um reality show de competição de modelos, foram lá várias candidatas para que a dona do programa e mais dois juízes selecionassem quais iam participar mesmo do programa. Uma dessas modelos é transgênero, ou seja, quando nasceu disseram que ela era homem, mas segundo o que ela falou ao programa, ela sempre teve certeza de que é mulher. Não sei não, mas se tivesse uma competição para ver quem sofre mais preconceito, eu ia no meu bolão apostar pesado nas mulheres transgênero. Eu nunca vi uma mulher transgênero passar na rua ou na televisão sem que quase todo o mundo achasse necessário olhar esquisito para ela, dar risinhos ou fazer uma piadinha, geralmente o pessoal faz questão também de dizer que não considera aquela mulher como mulher. Voltando ao exemplo do programa, claro que as modelos cisgênero falaram super mal da transgênero que estava competindo com elas, mas mais chocante pra mim foi a reação da dona do programa. Primeiro a dona quando tava entrevistando essa modelo, resolveu que era pertinente perguntar se ela havia operado ou não os genitais. Eu não sei não, mas me parece bastante violento perguntar a uma pessoa que era na prática uma candidata sendo entrevistada para um emprego sobre que aparência têm seus genitais. Se ela fosse cisgênero alguém consideraria esse tipo de pergunta aceitável? Se chegasse lá a pessoa que vai possivelmente contratá-la e perguntasse – mas diz aí, qual o diâmetro da tua vagina?

E como se isso ainda fosse pouco, depois o programa mostra um dos juízes falando sobre essa modelo, dizendo que ela estava se esforçando muito para ser mulher. Claro que o cara não deu a mínima para o que ela tinha dito, que sempre sem sombra de dúvida soube ser mulher, que interessa a opinião dela? Interessava mesmo era a dele, que não a considerava mulher de verdade, ou será que ele também achou que alguma modelo cisgênero estava se esforçando muito para ser mulher? Muita gente não deve entender isso (como eu também demorei muito a entender, aliás) porque a maioria não passa por esse tipo de problema, mas um dos aspectos mais fundamentais da identidade de uma pessoa é a identidade de gênero. E essa identidade continua sendo sistematicamente roubada das pessoas transgênero, principalmente das mulheres, porque os homens transgênero na maioria das vezes não são identificados pelos outros.

Enfim, pra mim essa questão se resume em três perguntas muito fáceis de responder. Em primeiro lugar, o que é uma mulher? Mulher é um corpo que tem a peça X em vez da peça Y ou mulher é a parte invisível que tá ali dentro, sendo aquele corpo? Ou mais importante que essa pergunta, quem é o dono da linguagem? A linguagem é de domínio exclusivo da maioria e a minoria tem que engolir a forma como determinarmos que ela deve ser usada ou a minoria também tem o mesmo direito à linguagem? E mais importante ainda, como eu quero usar a minha linguagem? Eu quero usá-la para excluir socialmente um grupo de pessoas que só é diferente de mim em um aspecto insignificante, apesar dessa exclusão não me trazer nenhuma vantagem ou eu quero usar minha linguagem para incluir todo o mundo e reconhecer que o direito tem que ser igual pra todo o mundo?

E pronto, continuo assim meu projeto radical de usar minha linguagem de forma cada vez menos violenta.

P.S.: O diálogo do post.

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Uma história: Mais ou menos uns dois anos atrás, eu hospedei aqui em casa uma finlandesa chamada Marjaana que queria conhecer o Rio de Janeiro (eu hospedo pessoas desconhecidas de graça, um dia escrevo sobre isso). Ela passou só três dias aqui em casa, mas às vezes até hoje eu mudo uma maneira de pensar e me dou conta depois que o primeiro contato significativo que eu tive com a idéia nova foi através dela. Lembro que num dia a gente estava passeando pela cidade e não sei por quê eu falei que uma mulher qualquer era feia. Aí ela me olhou estranho e disse ‘Como é que você tem coragem de chamar uma mulher de feia?’ Eu fiquei meio ‘hein, como é?’, e expliquei como costuma explicar quem não sabe muito bem o que está falando ou por quê – repetindo tudo: ‘Ué, ela é feia, quer dizer que não é bonita, ou que tem uma aparência ruim, ou que não me agrada, ou… feia é feia, ué, sei lá!’. Aí perguntei se ela nunca achava as pessoas feias. E ela falou que não.

Outra história: Estava lá em Helsinki, acabado de chegar, não tinha ainda onde morar e estava hospedado na casa duma pessoa que conheci lá, que também estava hospedando um estadunidense. Fomos os três sair numa sexta à noite, pra um bar que tinha também sua pista de dança, com DJ tocando música alta e tal. Eu fiquei meio à parte, porque os dois objetivos principais da maioria das pessoas que vão a esse tipo de ambiente (arranjar um par e dançar) quase nunca coincidem com os meus, que gosto muito mais de ficar observando as pessoas. Daí lá pelas tantas chega o estadunidense pra mim, aponta para duas mulheres que eu não tinha notado e pergunta: ‘Você quer dançar com aquelas garotas ali?’ Quê? Não quero não, passo. ‘Pô, cara! Vamos lá dançar com aquelas garotas, elas são bonitas!’ Vou não, vai tu. E deu pra ver pela reação dele que ele estava totalmente seguro que eu diria sim e iria lá com ele. Como essa situação, já passei por várias outras em que as pessoas quiseram me empurrar para cima de alguma mulher que não conheço. Às vezes é uma mulher específica que acharam bonita, outras vezes só querem que eu dê em cima de uma mulher qualquer, porque é isso que os homens têm que fazer.

Para explicar o que eu acho disso, vai me ajudar um quadrinho:

She's perfect. I'll take two.Esse é do site A Softer World, não tem título e traduzo assim: “Ah, o amor à primeira vista. Quando você vê uma pessoa tão bonita que esquece que ela não existe só pra você.” O quadrinho fala de amor à primeira vista, mas pra mim serve tão bem se trocar o amor por atração. Porque em primeiro lugar, nessas situações nunca se sabe nada sobre interesses, pensamentos, opiniões, vontades, personalidade ou vida da mulher. O que se sabe é só sobre a aparência. E, existindo tanta coisa que faz uma mulher ser humana, considerar primordialmente o único atributo que a faz comparável a um objeto, é esquecer que aquela mulher não existe só pra você. E em segundo lugar, raramente nessas situações se leva em conta o que a mulher quer. Quantas vezes não quiseram me empurrar pra cima duma amiga de uma amiga e em nenhum momento perguntaram a ela se ela queria isso ou não. E quando a mulher reage aos avanços do homem de forma negativa, quantas vezes não é considerado certo o homem continuar insistindo, e dizem que ele tem que ‘conquistar’ a mulher. Usar essa palavra, que implica luta, como se a vontade contrária da mulher fosse um inimigo a ser vencido, é esquecer que ela não existe só pra você.

E aí eu volto à pergunta da Marjaana, e penso de novo no que eu estou dizendo quando falo que uma mulher é feia. Em primeiro lugar, estou dizendo que a aparência dela não me agrada, mas e daí? Quem disse que ela tem que me agradar? E não é só isso, porque existe na sociedade em que eu vivo um padrão de beleza que as mulheres têm que atender, existe uma aparência feminina que é consierada certa e boa, e uma grande parte do valor que é atribuído a uma mulher vem do quanto ela consegue se aproximar desse padrão. Agora eu escuto a pergunta que ela fez assim: “Como é que você tem coragem de dizer que uma mulher não te agrada porque não tem a aparência certa, e que isso está errado e faz ela ter menos valor porque ela existe só pra você?” Não posso, que não me ouçam mais dizer Feia! de nenhuma mulher.

P.S.: A cena do post.

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As mad as hell

Ok, criei coragem e vou começar um novo blog. E antes de outra coisa qualquer, tenho uns negócios que preciso dizer aqui.

Tinha uma época, até pouco tempo atrás, em que eu fazia parte de praticamente tudo o que é maioria, vê só: eu era homem, era cisgênero, era branco, era heterossexual, não tinha nenhuma deficiência física (nem mental), ainda era considerado jovem, tinha crescido na zona sul do Rio de Janeiro, era magro, sei lá do que mais estou esquecendo. Nessa época, eu achava que não existia muito preconceito por aí. Quero dizer, eu sabia que existiam pessoas preconceituosas, mas na minha opinião bastava resolver esses casos isolados adequadamente e pronto, tudo ficava certo de novo. De todos os privilégios que uma pessoa tem por ser maioria, esse é um dos melhores – poder acreditar genuinamente que, fora poucas exceções, há respeito igual, direitos iguais e oportunidades iguais pra todo o mundo. De algumas dessas maiorias uma pessoa até pode sair (ou entrar) ao longo do tempo, mas eu continuo sendo parte de todas elas. Aconteceu foi que por umas pequenas coisas eu passei a não ser mais tão maioria assim:

Primeiro eu virei vegetariano, e deixei de ser uma pessoa igual a todo o mundo, que comia de tudo, e fiquei sendo um cara ‘fresco’ (não gosto dessa palavra, mas a uso aqui porque é disso que me chamam) que prefere às vezes não almoçar e continuar com fome a comer o arroz que ‘tem só um pouquinho de carne’.

Depois eu decidi que a faculdade de psicologia que eu tinha feito e a minha teórica carreira futura nessa área não me serviam e abandonei a profissão, então deixei de ser uma pessoa que ‘tinha um futuro pela frente’ e passei a ser um cara que estava ‘perdido’, ‘tendo uma crise de adolescência’ e ‘andando para trás na vida’.

Aí eu achei que já tinha passado tempo demais no Rio de Janeiro e precisava conhecer outros lugares, e fui viajando por aí sem rumo certo e sem data pra voltar, então deixei de ser uma pessoa que tinha casa, raízes etc. como toda pessoa de bem e passei a ser um cara ‘doido’, que ‘não se importa com as pessoas’ e por isso as ‘abandona’.

E acabei indo morar um tempo na Finlândia, então continuei sendo uma pessoa que tinha crescido na zona sul do Rio de Janeiro, mas lá isso não tinha significado nenhum, lá eu era só um imigrante não qualificado.

Não quero que pareça que eu considero comparáveis esses eventos com a discriminação bem mais pesada direcionada contra quem não faz parte das maiorias que citei ali em cima (na verdade acho que ser imigrante não qualificado se compararia, mas o fui por muito pouco tempo), mas pra mim essas mudanças alteraram drasticamente minha experiência pessoal do preconceito. Porque tudo bem, eu não sofri discriminação pesada nunca mas, como já disse, eu era parte de muitas maiorias e estava acostumado a não sofrer discriminação nenhuma, então essas mudanças me abriram uma janelinha para o outro lado e eu comecei a entender tudo diferente. Comecei também a ler um bocado sobre preconceitos – discussões intermináveis em fóruns, blogs feministas, hoje baixei pela primeira vez um livro sobre o assunto – e comecei a entender melhor.

Comecei a entender, por exemplo, como freqüentemente se rouba a identidade de uma minoria para manter a diferença de poder, porque não dar o direito a uma pessoa de se definir, de dizer exatamente quem e o quê ela é, deixa a pessoa confusa, solitária e enfraquecida. Se eu decidi virar vegetariano, isso não é quem eu sou agora, isso não é um passo para me aproximar mais de uma ética que eu considero desejável, os outros sabem que não tem nada a ver com ética – é pura frescura! Se eu abandonei minha profissão antiga em favor de um novo caminho, esse caminho não é quem eu sou agora, os outros sabem que o caminho certo é continuar na carreira – e se não estou andando para a frente só posso estar andando para trás! Se eu não quero ficar vivendo no mesmo lugar de sempre, se quero viver outras situações em outras culturas, isso é incompatível com me importar com meus amigos aqui, os outros sabem que
na verdade eu não me importo com ninguém, e provo isso abandonando todo o mundo! Eu não sei quem eu sou, os outros é que sabem e insistem em me dizer isso a todo momento…

Uma das histórias de me roubarem identidade mais fortes pra mim foi quando eu tava lá na Finlândia, trabalhando de braços e pernas para uma pessoa tetraplégica, acompanhando ela numa clínica de reabilitação no meio do mato. Ela ia receber a visita de um primo, que vinha dos EUA, e eu fiquei feliz por aparecer uma pessoa diferente com quem conversar, mesmo que só por uma tarde. Aí ele chegou, com as filhas de idade próxima da minha, as duas trabalhando em cargos de bom status social, fazendo pós-graduação, coisas assim, e estávamos ali conversando todos em inglês. Lembro que ele, vendo que eu estava num trabalho não qualificado, me perguntou se eu estudava e estava de férias, que planos tinha para quando acabasse meu contrato com o fim do verão, etc. Eu disse que não sabia, mas que não estudava e que não planejava voltar a estudar nada tão cedo, que ia ver se arranjava outro trabalho na Finlândia, se ia mudar de país, como é que ia ser. Aí ele me solta a pérola: “Mas ué, então o que você vai ser quando crescer?” Eu fiquei meio chocado, sem reação, pensando – o que esse cara tá querendo dizer? Aí minha chefe entendeu e respondeu: “Não, ele já estudou, ele é psicólogo”. E ele soltou um “Ah, sim” com aquele tom de alívio. Deixa eu repetir a ver se entendo: estava ali um completo estranho, que tinha acabado de me ver pela primeira vez na vida, que provavelmente nunca mais me veria de novo, que não sabia nada sobre mim a não ser o que eu acabara de contar e ele se julgou no direito de determinar o que era uma trajetória correta para minha vida e dizer na minha cara que se eu não estava seguindo uma trajetória próxima dessa, então era que eu ainda não tinha crescido! E ao saber que eu era psicólogo ele achou que entendeu quem eu era, porque o que define uma pessoa é a sua profissão, segundo o que ele tinha acabado de decidir sozinho. Então tá.

O pior dessa história aí em cima é que o cara parecia ser de outra forma uma pessoa completamente normal e razoável. Isso é outra coisa que levei um tempo pra entender: o preconceito que existe não é coisa de casos excepcional, é um negócio sistemático que vem de todo lado. Eu sou alvo em iguais proporções de pessoas que são minhas amigas e pessoas que não gostam de mim, de pessoas razoáveis e pessoas estúpidas, de pessoas que me conhecem desde pequeno e pessoas que acabaram de me ver pela primeira vez. Porque as estruturas sociais e culturais que fabricam e mantêm preconceito estão aí, e todo o mundo cresce debaixo delas e assim aprende a repeti-las, sem nem saber o que está fazendo. Quem não pensa sobre ou não se preocupa com isso repete sempre; quem pensa e se preocupa freqüentemente escorrega e repete. Mesmo as pessoas que são vítimas freqüentes.

Eu tinha planejado aqui vários exemplos pra ilustrar preconceitos (especificamente roubos de identidade) contra várias minorias, mas já ficou muito grande o texto e vou pôr um só:

Esse quadrinho é do XKCD, um site de quadrinhos que sempre leio. O título desse é “How it works”, ou “Como as coisas funcionam”, e minha tradução vai assim: na primeira parte, um homem escreve uma asneira matemática no quadro e outro homem diz: “uau, você é péssimo em matemática”, na segunda parte uma mulher escreve a mesma asneira e um homem diz: “uau, mulheres são péssimas em matemática”. Situação bastante comum, não? Vejo essa ou variações dela muitas vezes por aí. E olha como é nesse tipo de situação o roubo de identidade pelo uso de um estereótipo: o homem está livre, ele tem o direito de ser ruim em matemática sem que isso pese sobre nenhum outro homem, isso é apenas sobre ele e não determina outros aspectos de sua personalidade ou suas capacidades. Por outro lado, a mulher, ao ser encaixada num estereótipo, deixa de ser um indivíduo e passa a ser a representante de uma categoria. Assim, ela perde identidade em primeiro lugar por passar a ser associada com outros aspectos do estereótipo, além da habilidade matemática. Em segundo lugar, ela perde identidade pela atuação do estereótipo como profecia auto-realizadora, porque se uma pessoa é ruim em matemática, sempre pode ser que ela mude através de esforço ou ajuda, enquanto que se todas as mulheres são ruins em matemática, isso é da natureza delas e não adianta nem tentar mudar, ué. Em terceiro lugar, perdem identidade todas as outras mulheres, porque cata exemplo que atende um estereótipo é visto como prova de que ele está certo, e vai portanto fortalecê-lo e contribuir para que reflita e pese sobre todas as outras mulheres. Isso numa frase só, dita sem pensar.

E antes de sair do quadrinho, deixa eu apontar o dedo para outro aspecto dele: esse é claramente um quadrinho feminista, porque mostra uma situação preconceituosa comum e, por ressaltar o absurdo dessa situação, se posiciona contra ela. É também um quadrinho minimalista, os bonecos são de palitinho e nem rosto têm. Mas peraí – minimalista mesmo são os homens, a mulher é estabelecida como tal pela adição de cabelos. Os homens, nesse quadrinho, são absolutos; a mulher é relativa aos homens.
E não importa se o autor do quadrinho fez isso porque na cabeça dele o homem é que é o padrão de ser humano, ou se foi porque achou que na cabeça dos outros é que isso acontece e ninguém entenderia que a mulher é mulher se ela tampouco tivesse cabelos, ou até se foi por puríssimo acaso – quando ele fez o quadrinho assim, mesmo se foi sem querer e mesmo tendo denunciado uma estrutura preconceituosa, ele fortaleceu outra que também é preconceituosa.

Pronto, basta. Eu sei que estou sendo super-super-ficial aqui, mas eu vou escrevendo mais sobre isso, imagino. Um dia também escrevo a introdução a esse blog, que não é só sobre um assunto. A quem quiser ler mais sobre feminismo e preconceitos em geral, recomendo fortemente que leia a Lola se quiser ler um blog em português, que leia a Harriet se quiser ler um blog em inglês e que vá ao Feminista se quiser baixar livros e artigos.

Fora isso tudo, o que eu queria mesmo dizer é isso: eu sei perfeitamente que já roubei identidade de um monte de gente e já reforcei sem querer vários outros tipos de preconceito contra diversas minorias. Provavelmente ainda faço isso às vezes sem notar. Mas, a partir de agora, assumo responsabilidade por isso. Ainda não sei bem o que fazer com essa responsabilidade, mas acho que escrever isso aqui é um passo e aos poucos vou descobrindo outros. Enquanto isso, estou bravo pra caramba com esse negócio todo.

P.S.: O clipe do post.

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