Faz um tempão que eu penso em comentar aqui aquele caso da Eliza, que foi provavelmente assassinada pelo amante. Digo provavelmente porque não sei como anda, se teve resultado, se o cara foi condenado ou não, não tenho acompanhado o que se passa ou passou com esse caso, só sei que da última vez que vi as evidências estavam bastante contra ele. Eu sei que essa história já é bem antiga, e que montes de gente já falaram montes de coisas sobre isso, mas mesmo assim ainda acho relevante – porque esse foi só um de um estereótipo de assassinatos que se repete, e a reação que eu vi das pessoas também foi estereotípica.
Uma das primeiras coisas que eu escutava sempre que se falava na Eliza era alguém questionando a ética dela. Diziam que ela tinha ficado grávida de propósito, que ela era atriz de filme pornô, que ela saía com vários jogadores de futebol, que participava de orgias, que era amante de um homem casado, etc. É interessante como as pessoas apagam totalmente a responsabilidade masculina para jogar tudo nas costas da mulher. Ela ficou grávida de propósito – pode ser, mas sozinha? O cara não fez nada? Ele não concordou em fazer sexo com ela? Ele não sabia que tinha que usar camsinha? Coitado! Ela saía com vários jogadores de futebol – legal, e eles não queriam sair com ela? Ela os obrigava? Ela participava de orgias – ok, e ela participava sozinha? Não estavam ali mulheres e homens que todos tinham concordado em participar? Ela era amante de um homem casado – sim, e ele não era também amante dela? Ela tinha algum compromisso com a esposa dele? O cara não escolheu livremente sair com ela mesmo sendo casado? Realmente não entendo. E claro, por trás dessas ‘acusações’ todas qual é a idéia? O que é anti-ético nisso tudo? Aparentemente a única opção é que as pessoas acham anti-ético uma mulher gostar de ou praticar sexo livre e consensual. E mesmo que as acusações fossem sérias e ela fosse uma péssima pessoa, isso não tira de ninguém o direito a não ser assassinada. Apesar disso eu escutei muito coisas do tipo ‘Ela não merecia isso, claro, mas também ela era assim, assado e blá blá blá’. Mas? Que mas é esse? Ela não merecia isso E ela era assim, assado e blá blá blá. E. Conjunção aditiva, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Como quer que ela fosse, isso não altera nenhum centavo do fato de que ela não merecia ser assassinada.
Depois vinha sempre o pessoal que achava que ok, tudo bem, claro que ninguém merece ser assassinada, mas (de novo mas) pô, a culpa era um pouquinho dela também, né? Afinal, ela não sabia que o cara era inclinado à violência? Ele já tinha até ameaçado ela! Ela devia ter se afastado mas não, claramente ela deixou isso acontecer. O que eu tenho a dizer sobre isso é muito simples: nunca, em nenhuma hipótese, cabem críticas a nenhuma pessoa com base em comportamentos de segurança (pessoal, claro, a coisa muda de figura quando está envolvida a segurança de outros) que ela adotou ou deixou de adotar. E isso por dois motivos: O primeiro é que segurança não é de graça. Qualquer coisa que uma pessoa fizer para aumentar sua segurança exige um sacrifício de liberdade. E como não existe segurança perfeita, essa escolha nunca é óbvia. Cada pessoa tem que decidir por si quanta liberdade está disposta a sacrificar por quanto de segurança, e nesse ponto não existe nenhuma escolha errada. O outro motivo é que criticar comportamentos (ou falta) de segurança permite que se culpe uma pessoa por tudo (nesse ponto de novo está se apagando a responsabilidade do homem para jogá-la toda nas costas da mulher). Claro, como a segurança nunca é completa sempre há alguma falha a ser criticada. E depois que já aconteceu a catástrofe é muito fácil ver qual foi. Dizer agora que ‘ela não devia ter feito isso ou aquilo’ é mole, a gente já sabe que fazer isso ou aquilo fez parte da cadeia de eventos que terminou em tragédia. Só que antes ninguém tinha como saber. A única coisa que impede uma pessoa de ser assassinada é não cruzar com assassinos, e os assassinos não usam crachá.
Mas acho que essas duas questões estão subordinadas a uma questão central, que é: quando um homem assassina uma mulher, as pessoas se importam muito em discutir a vítima. Mas se o objetivo for entender a situação ou contribuir para melhorá-la, o que tem que ser discutido é o assassino. Só que quase sempre que alguém resolve falar nele, é para dizer que é um monstro. Assim é fácil demais, chama-se o cara de monstro e fica tudo lindamente resolvido – monstros fazem coisas monstruosas, ué, não há nada que ninguém possa fazer contra isso, lavo as minhas mãos e fim de papo. Só que eu não compro esse discurso, eu não acho que ele seja um monstro, acho que é uma pessoa de verdade. A pergunta importante é: por quê pessoas de verdade fazem coisas monstruosas? Por quê homens de verdade matam mulheres de verdade? Isso tá ligado a nossos ideais culturais que põem a mulher num papel passivo e o homem num papel ativo? Que vêem a mulher ainda em muitos sentidos como posse? Que dizem que homem tem que ser agressivo, que não pode levar desaforo pra casa, que não pode deixar que uma mulher o engane? Essas coisas é que eu quero discutir quando acontece um caso desses. Mas quero discuti-las sem tirar o corpo fora, quero perguntar também qual é o meu papel na manutenção desses ideais. Quero saber qual é minha participação pessoal na produção social de assassinos.
P.S.: A citação do post.
fiquei curiosa e dei uma olhada/lida no seu blog.
quando falei que existe pelo menos uma diferença entre homem/mulher, fui apenas suscinta. não é metafora.
porque homens e mulheres NÃO são iguais por mais discursos feministas que aparecerem pelo mundo a fora….
aqui vizinha a minha cidade um jovem rapaz desapareceu sem deixar nenhum vestigio,
a policia esta procurando-o, mas sem nenhuma pista.
o caso Elisa abriu as portas para que isso aconteça de forma
banalizada.
Fátima,
Já respondi a esse comentário lá no blog da Lola, mas respondo aqui também: É verdade que homens e mulheres não são idênticos. Mais que verdade, é tão óbvio que nunca ouvi ninguém discordar disso. Só que nenhuma das diferenças que de fato existem justifica as atuais diferenças sociais. Ser feminista e falar em igualdade entre os gêneros é falar de igualdade de direitos, liberdades, oportunidades, etc.
É verdade que homens também desaparecem e são mortos, mas isso não tem nada a ver com o assunto desse post. Escrevi-o para falar especificamente de um tipo de assassinato, que é o assassinato de mulheres por homens que as consideram como posses suas.
Primeirocego, acho que você iria apreciar bastante a leitura de um livro chamado Las Estructuras de la violéncia de Rita Laura Segato.
Ela trabalha um conceito excelente chamado Mandato de violacíon que explica bem este fenômeno.
Excelente seu blog!
Oi, Ághata! Muito obrigado pela visita e pela indicação de livro, vou ver se o encontro.
Abraço!
Apenas passando…
vim dar uma olhada no teu blog depois do post lá da Lola.
Abraços!
(quando tiver com mais tempo faço comentários, por ora estou só “folheando” rs)