Ultimamente tenho conversado um bocado sobre cotas raciais nas universidades públicas. Descobri que entre as pessoas com quem tenho contato regular mais próximo quase ninguém é a favor. Aliás, de todas as pessoas com quem falei sobre o assunto, nenhuma é a favor. Tá certo que entre as pessoas com quem tenho contato próximo regular a maioria é branca, mas mesmo assim eu esperava que alguém concordasse comigo. Eu sou a favor das cotas porque acho que a quantidade desproporcionalmente baixa de pessoas negras na universidade pública é ao mesmo tempo um sintoma e uma causa de racismo. As pessoas negras têm desvantagens sociais que entre outras coisas limitam seu acesso à educação superior, e isso contribui para reforçar estereótipos raciais que geram mais desvantagens sociais ainda. Só que a maioria das pessoas contrárias às cotas não acredita que exista racismo no Brasil, embora os argumentos que eu ouço nesse sentido façam parecer que a pessoa acha isso mas não dedicou quase nenhum tempo ou atenção a pensar no assunto.
O primeiro argumento geralmente é algo como ‘Eu não sou racista! Não sou, não sou, não sou!’ O que claro, não é um argumento, mas mostra duas coisas: mostra que a pessoa se sente pessoalmente atacada quando se fala sobre racismo e mostra que a pessoa acha que racismo é um problema individual. Bom, não me interessa quem é ou não é racista, aliás, eu nem sei o que isso significa. O que me interessa é discutir racismo sistemático – quais são as condições sociais que geram desvantagem às pessoas negras – e o que podemos fazer para desconstruí-lo.
Outro argumento é do tipo ‘A biologia já provou que não existe diferença genética significativa entre negros e brancos, logo não existe raça e não pode existir racismo’. Tá, só faltou lembrar que ninguém discute racismo do ponto de vista biológico. Raça e racismo são conceitos sociológicos, ninguém anda por aí fazendo testes de DNA nas pessoas para decidir se discrimina ou não discrimina. O que as pessoas fazem é olhar para uma pessoa, percebê-la como branca ou como negra e agir de acordo. O racismo não é menos real nem tem menos efeitos só porque não se justifica geneticamente.
Tem também o meu argumento preferido, que é ‘Na verdade os portugueses não iam lá no interior da África caçar negros para trazer ao Brasil, eles negociavam com negros que viviam na costa a compra de seus prisioneiros’. Esse é meu preferido porque, além de não ter nada a ver com o assunto (ou alguém entende como algo que alguns negros fizeram ou não fizeram na África há centenas de anos interfere no racismo do Brasil atual?), ainda tenta insinuar algo que muita gente pensa e não tem coragem de dizer – que o racismo na verdade é culpa dos negros. Claro! Se não fossem os negros que venderam outros negros aos portugueses, esses outros negros não teriam sido escravos no Brasil e seus descendentes não seriam vítimas de racismo aqui hoje. Todos os brancos já podem descansar tranqüilos, ufa!
E tem o pessoal que diz que o que existe é preconceito de classe, não de raça, e que por uma incrível coincidência é que estão os negros super-representados nas classes ditas mais baixas. Geralmente a pessoa acompanha essa idéia de uma prova irrefutável na forma de pergunta: quem é mais discriminado – a pessoa negra que está bem vestida ou a branca maltrapilha? Ok, mas se vale comparar ao mesmo tempo duas variáveis diferentes com efeitos opostos, eu também posso provar coisas interessantes: Experimente deixar a luz de casa apagada durante o dia e quando anoitecer, acenda. Depois responda – estava mais claro de dia com a luz apagada ou de noite com a luz acesa? Se era de dia, já pode economizar na conta de luz, está provado que as lâmpadas não funcionam.
Continuando com esse argumento de que o preconceito é na verdade de classe, eu poderia buscar aqui estatísticas que desmentiriam isso, mas fico com preguiça. Então vou fazer umas perguntinhas: Uma pessoa está lendo uma história e na história há um médico – de que cor ela imagina o médico? Na história também há um assaltante – de que cor ela imagina o assaltante? Quantas vezes uma pessoa branca é preterida a uma vaga de emprego e tem dúvidas se houve motivação racial? E uma pessoa negra? Quando um produto diz ser ‘cor de pele’, de que cor é o produto? O tipo de cabelo chamado ‘bom’ é prevalente em que raça? E o chamado ‘ruim’? Se uma pessoa branca for a uma entrevista de emprego com seu cabelo na forma natural, isso pode contar contra ela? E se a pessoa for negra? Ou então esqueça todas essas perguntinhas e escute o conto de fadas:
Era uma vez um país idêntico ao Brasil, só que existia racismo e existia um deus benévolo e onipotente. Daí deus, que ficava triste com o racismo, resolveu agitar a varinha e fazê-lo desaparecer magicamente da cabeça das pessoas. Só que como ela tinha espírito científico, decidiu deixar todos os outros preconceitos intactos, para ver o que aconteceria. Também deixou intactas as estatísticas – ainda havia muito mais pessoas negras entre as classes mais ‘baixas’, ainda havia muito mais pessoas negras entre as com menos escolaridade, ainda havia muito mais pessoas negras entre a população carcerária, ainda havia muito mais pessoas brancas entre as que têm um negócio ou um alto cargo em alguma empresa. E aí, as pessoas desse país, que como todas as outras pessoas eram muito boas em identificar padrões, começaram a perceber que uma pessoa de baixa escolaridade formal tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa que já tinha sido presa tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa de pouca renda tinha grande chance de ser negra. E tendo preconceitos contra todos esses grupos, as pessoas começaram a ficar griladas. Também nesse país se escutava muito esse discurso que se escuta aqui, de que ‘vence’ na vida quem tem méritos próprios, que qualquer pessoa consegue ser bem sucedida através do seu próprio esforço, e então os grilos começaram a cantar um pouco mais alto. Daí quando alguém (provavelmente branco) ia contratar uma pessoa, como se faz aqui também selecionava primeiro pelo currículo. Mas nunca era suficiente, porque entre tantos candidatos para uma vaga, havia sempre algumas pessoas igualmente qualificadas, então os melhores eram chamados a entrevista. E na entrevista eram preferidos habitualmente candidatos brancos. Não porque o entrevistador pensasse que negros eram inferiores a brancos, claro que não! Mas entre um negro e um branco os grilos faziam cri-cri e a simpatia era inconscientemente maior pelo branco. O entrevistador pensava ‘não tem nada a ver com a cor da pele, mas esse sujeito me inspira mais confiança que o outro, não sei por quê’. E nas escolas também os professores e professoras escutavam o cri-cri e sem querer davam mais atenção e estimulavam mais os alunos e alunas brancas, e quando elas eram alunas ruins, tinham mais paciência com elas, e desistiam depois de mais tentativas. E aí os adultos negros eram aprovados para trabalhos piores que os brancos, e ganhavam menos, e tinham menos condições de pôr seus filhos em boas escolas, e as crianças negras tinham desempenho escolar pior que as brancas, e paravam de estudar mais cedo, e se tornavam adultos menos qualificados que iam ser de novo preteridos nas entrevistas de emprego, e assim os negros continuaram em maioria entre grupos marginalizados. E deus viu que até os deuses inventados têm limite a sua onipotência, e que acabar com o racismo daquele jeito, sem fazer mudanças sociais, na verdade não acabava com racismo nenhum.
Enfim, quando discordam das cotas por questões de implementação eu até concordo, porque as cotas são mesmo uma solução cheia de problemas. Mas só concordo se apresentarem outra solução melhor, porque entre o problema original inteirinho e uma solução de meia tigela, eu prefiro a solução. E quando discordam por questão de princípio, porque o que existe é classismo e não racismo, eu respondo: Não é assim por dois motivos. Em primeiro lugar não é porque não é. Em segundo lugar não é porque, se fosse, já não seria.
P.S.: Pra terminar, ao argumento de que instituir cotas é racismo ao contrário, deixo que respondam por mim os quadrinhos do post.