Ultimamente tenho conversado um bocado sobre cotas raciais nas universidades públicas. Descobri que entre as pessoas com quem tenho contato regular mais próximo quase ninguém é a favor. Aliás, de todas as pessoas com quem falei sobre o assunto, nenhuma é a favor. Tá certo que entre as pessoas com quem tenho contato próximo regular a maioria é branca, mas mesmo assim eu esperava que alguém concordasse comigo. Eu sou a favor das cotas porque acho que a quantidade desproporcionalmente baixa de pessoas negras na universidade pública é ao mesmo tempo um sintoma e uma causa de racismo. As pessoas negras têm desvantagens sociais que entre outras coisas limitam seu acesso à educação superior, e isso contribui para reforçar estereótipos raciais que geram mais desvantagens sociais ainda. Só que a maioria das pessoas contrárias às cotas não acredita que exista racismo no Brasil, embora os argumentos que eu ouço nesse sentido façam parecer que a pessoa acha isso mas não dedicou quase nenhum tempo ou atenção a pensar no assunto.
O primeiro argumento geralmente é algo como ‘Eu não sou racista! Não sou, não sou, não sou!’ O que claro, não é um argumento, mas mostra duas coisas: mostra que a pessoa se sente pessoalmente atacada quando se fala sobre racismo e mostra que a pessoa acha que racismo é um problema individual. Bom, não me interessa quem é ou não é racista, aliás, eu nem sei o que isso significa. O que me interessa é discutir racismo sistemático – quais são as condições sociais que geram desvantagem às pessoas negras – e o que podemos fazer para desconstruí-lo.
Outro argumento é do tipo ‘A biologia já provou que não existe diferença genética significativa entre negros e brancos, logo não existe raça e não pode existir racismo’. Tá, só faltou lembrar que ninguém discute racismo do ponto de vista biológico. Raça e racismo são conceitos sociológicos, ninguém anda por aí fazendo testes de DNA nas pessoas para decidir se discrimina ou não discrimina. O que as pessoas fazem é olhar para uma pessoa, percebê-la como branca ou como negra e agir de acordo. O racismo não é menos real nem tem menos efeitos só porque não se justifica geneticamente.
Tem também o meu argumento preferido, que é ‘Na verdade os portugueses não iam lá no interior da África caçar negros para trazer ao Brasil, eles negociavam com negros que viviam na costa a compra de seus prisioneiros’. Esse é meu preferido porque, além de não ter nada a ver com o assunto (ou alguém entende como algo que alguns negros fizeram ou não fizeram na África há centenas de anos interfere no racismo do Brasil atual?), ainda tenta insinuar algo que muita gente pensa e não tem coragem de dizer – que o racismo na verdade é culpa dos negros. Claro! Se não fossem os negros que venderam outros negros aos portugueses, esses outros negros não teriam sido escravos no Brasil e seus descendentes não seriam vítimas de racismo aqui hoje. Todos os brancos já podem descansar tranqüilos, ufa!
E tem o pessoal que diz que o que existe é preconceito de classe, não de raça, e que por uma incrível coincidência é que estão os negros super-representados nas classes ditas mais baixas. Geralmente a pessoa acompanha essa idéia de uma prova irrefutável na forma de pergunta: quem é mais discriminado – a pessoa negra que está bem vestida ou a branca maltrapilha? Ok, mas se vale comparar ao mesmo tempo duas variáveis diferentes com efeitos opostos, eu também posso provar coisas interessantes: Experimente deixar a luz de casa apagada durante o dia e quando anoitecer, acenda. Depois responda – estava mais claro de dia com a luz apagada ou de noite com a luz acesa? Se era de dia, já pode economizar na conta de luz, está provado que as lâmpadas não funcionam.
Continuando com esse argumento de que o preconceito é na verdade de classe, eu poderia buscar aqui estatísticas que desmentiriam isso, mas fico com preguiça. Então vou fazer umas perguntinhas: Uma pessoa está lendo uma história e na história há um médico – de que cor ela imagina o médico? Na história também há um assaltante – de que cor ela imagina o assaltante? Quantas vezes uma pessoa branca é preterida a uma vaga de emprego e tem dúvidas se houve motivação racial? E uma pessoa negra? Quando um produto diz ser ‘cor de pele’, de que cor é o produto? O tipo de cabelo chamado ‘bom’ é prevalente em que raça? E o chamado ‘ruim’? Se uma pessoa branca for a uma entrevista de emprego com seu cabelo na forma natural, isso pode contar contra ela? E se a pessoa for negra? Ou então esqueça todas essas perguntinhas e escute o conto de fadas:
Era uma vez um país idêntico ao Brasil, só que existia racismo e existia um deus benévolo e onipotente. Daí deus, que ficava triste com o racismo, resolveu agitar a varinha e fazê-lo desaparecer magicamente da cabeça das pessoas. Só que como ela tinha espírito científico, decidiu deixar todos os outros preconceitos intactos, para ver o que aconteceria. Também deixou intactas as estatísticas – ainda havia muito mais pessoas negras entre as classes mais ‘baixas’, ainda havia muito mais pessoas negras entre as com menos escolaridade, ainda havia muito mais pessoas negras entre a população carcerária, ainda havia muito mais pessoas brancas entre as que têm um negócio ou um alto cargo em alguma empresa. E aí, as pessoas desse país, que como todas as outras pessoas eram muito boas em identificar padrões, começaram a perceber que uma pessoa de baixa escolaridade formal tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa que já tinha sido presa tinha grande chance de ser negra, que uma pessoa de pouca renda tinha grande chance de ser negra. E tendo preconceitos contra todos esses grupos, as pessoas começaram a ficar griladas. Também nesse país se escutava muito esse discurso que se escuta aqui, de que ‘vence’ na vida quem tem méritos próprios, que qualquer pessoa consegue ser bem sucedida através do seu próprio esforço, e então os grilos começaram a cantar um pouco mais alto. Daí quando alguém (provavelmente branco) ia contratar uma pessoa, como se faz aqui também selecionava primeiro pelo currículo. Mas nunca era suficiente, porque entre tantos candidatos para uma vaga, havia sempre algumas pessoas igualmente qualificadas, então os melhores eram chamados a entrevista. E na entrevista eram preferidos habitualmente candidatos brancos. Não porque o entrevistador pensasse que negros eram inferiores a brancos, claro que não! Mas entre um negro e um branco os grilos faziam cri-cri e a simpatia era inconscientemente maior pelo branco. O entrevistador pensava ‘não tem nada a ver com a cor da pele, mas esse sujeito me inspira mais confiança que o outro, não sei por quê’. E nas escolas também os professores e professoras escutavam o cri-cri e sem querer davam mais atenção e estimulavam mais os alunos e alunas brancas, e quando elas eram alunas ruins, tinham mais paciência com elas, e desistiam depois de mais tentativas. E aí os adultos negros eram aprovados para trabalhos piores que os brancos, e ganhavam menos, e tinham menos condições de pôr seus filhos em boas escolas, e as crianças negras tinham desempenho escolar pior que as brancas, e paravam de estudar mais cedo, e se tornavam adultos menos qualificados que iam ser de novo preteridos nas entrevistas de emprego, e assim os negros continuaram em maioria entre grupos marginalizados. E deus viu que até os deuses inventados têm limite a sua onipotência, e que acabar com o racismo daquele jeito, sem fazer mudanças sociais, na verdade não acabava com racismo nenhum.
Enfim, quando discordam das cotas por questões de implementação eu até concordo, porque as cotas são mesmo uma solução cheia de problemas. Mas só concordo se apresentarem outra solução melhor, porque entre o problema original inteirinho e uma solução de meia tigela, eu prefiro a solução. E quando discordam por questão de princípio, porque o que existe é classismo e não racismo, eu respondo: Não é assim por dois motivos. Em primeiro lugar não é porque não é. Em segundo lugar não é porque, se fosse, já não seria.
P.S.: Pra terminar, ao argumento de que instituir cotas é racismo ao contrário, deixo que respondam por mim os quadrinhos do post.
Ola Henrique,
Eu nao posso honestamente dizer que nao sou preconceituosa pq ja me peguei repetindo piadinhas pejorativas. O exemplo ‘cabelo ruim’ me pegou em cheio, ja que por varias vezes eu disse que tenho cabelo ruim. Meu cabelo eh encaracolado… realmente nunca ouvi falar de cabelo ruim qdo se trata de cabelos lisos.
O racismo brasileiro eh bem velado qdo comparado ao relacionamento branco-negro dos EUA, por exemplo. Eu temo que o que se ve la tb se torne comum no Brazil. Os negros americanos sao engajados, representativos e ativos politicamente, mas ainda sao as eternas vitimas dos ‘brancos’. Eu sou branca e nao posso me sentir culpada pela condicao imposta aos negros muito antes de mim. Meu ponto em dizer isso eh pq eu me ressinto toda vez que se fala tanto em racismo, fazendo parecer que os brancos tem mesmo que pagar a conta do passado. Infelizmente todo mundo paga.
Se existem cotas para negros, entende-se que alguns que estudaram muito pra passar pra um vestibular, e ou sobreviveram a um ensino publico deficiente, nao conseguirao entrar pra faculdade pq o numero de vagas esta reduzido – entre estes podem estar brancos ou negros. Eu entendo o proposito do sistema de cotas, que eh uma medida paliativa, mas isso devia acontecer num estagio anterior, no ensino medio ou fundamental. Atingir a massa pobre e negra eh tomar acao na formacao das familias, trazer as criancas pra escola – tira-las das ruas. Sao poucos que sequer terminam o ensino medio.
Eu tenho medo de rotulos e bandeiras porque elas soh levantam muros, segregam. Existem brancos pobres tambem. E se fossemos continuar essa discussao teriamos que fazer uma escolha entre falar sobre pobres ou sobre negros. Eu prefiro falar dos oprimidos, dos excluidos.
Bem, essa eh minha impressao. Nem to certa, nem to errada. Ainda estou tentando construir um parecer mais informado.
Oi, Ruama
Então, você falou que não pode se sentir culpada pela condição imposta aos negros muito antes de você. Eu escuto isso bastante quando discuto cotas com pessoas brancas, e concordo totalmente, claro. Só que culpa não tem nada a ver com a discussão. Se você concorda que existe racismo aqui, então você concorda que pessoas têm desvantagens por serem negras. Isso é um problema de hoje, não é do passado. Não interessa de quem é ou de quem foi a culpa, interessa é que o problema permanece e precisa ser resolvido. Quando eu defendo cotas raciais, é para ter reserva de vagas para negros proporcional à população negra do local. Quando é muito maior a proporção de brancos na universidade pública do que na população geral e isso se corrige para proporções iguais, não é uma conta do passado que os brancos estão pagando, é uma conta do presente que os negros estão deixando de pagar para os brancos.
Outra coisa, dizer que é preciso tomar ação na formação das famílias, trazer as crianças pra escola e tirá-las das ruas está certo, mas de novo não tem nada a ver com as cotas. Não são ações mutuamente exclusivas, pode-se fazer isso tudo E cotas. As cotas têm a vantagem ainda de ser uma solução de baixo custo e curto prazo embora, claro, seja uma solução para um problema relativamente pequeno.
Sim, também existem brancos pobres e sim, eles são também discriminados. Mas os brancos pobres ainda têm vantagens injustas sobre os negros pobres, assim como os brancos de classe ‘média’ têm vantagens sobre os negros em mesma condição. Podemos falar sobre pobres e sobre negros sim, por que não? Só acho melhor falar em uma coisa de cada vez, para não confundir. E ah, sou a favor também das cotas para alunos de escolas públicas.
Essa história de que rótulos e bandeiras levantam muros e segregam só é válida se você pressupor que os muros ainda não estão de pé. E eu acho que no Brasil há muitos muros de pé entre negros e brancos. Daí podemos escolher se vamos olhar pro outro lado, não falar deles e fingir que não existem (quem está do lado melhor, pelo menos, tem essa opção) ou podemos escolher reconhecê-los, analisá-los e discutir ‘E aí, como é que derrubamos esse troço?’.
Abraço!
Voce tem razão, nao estaríamos construindo muros, mas reforçando-os. Os muros ja existem. Dando um segundo olhar à distribuição de cotas, esta não é uma medida que prejudique a sociedade e que terá efeito muito benéfico quanto à esta condição desigual.
Acho que falar de pobres e negros são caminhos diferentes. Falar sobre soluções para os pobres (que perfeitamente abrangem os negros que são marginalizados) abre uma gama de possibilidades para o presente e futuro. No entanto, falar de desigualdade e racismo que o negro sofre, sempre faz o assunto voltar pro passado, nas origens do problema. Não dá pra fazer nada no passado. Ja aconteceu, já foi – tá feito. Acho que agora sim cheguei no ponto do porquê falar de problemas raciais me frustra. Se formos falar de soluções para a desigualdade social do negro e dos pobres olhando pro presente e futuro, os caminhos vao ser praticamente os mesmos.
Por que não sistema de cotas para (TODOS os) pobres, e não somente para negros? Daí voce diz que os brancos pobres tem uma vantagem sobre os pobres negros. Daí, neste momento, você está imputando sobre o pobre branco a culpa sobre o pobre negro ter mais desvantagens (estas que começaram lá no passado). Ambos pobres brancos e negros estão na mesma m. de situação! O que eu acho é que tem muitos filhos de classe média que roubam as oportunidades de educação do pobres. As universidades públicas não dão acesso ao mais pobres porque além do ensino fundamental público ser deficiente, a classe média brasileira investe para que seus filhos entrem para uma universidade pública. Nessa equação, os pobres brancos e negros perdem igualmente.
Obrigada pelo espaço para divagar sobre o assunto.
Ruama,
Acho que nossa divergência aqui é que você acredita que o racismo não tem existência independente do classismo, e eu acho que tem. Isso fica mais ou menos claro quando você diz que soluções para os pobres perfeitamente abrangem os negros que são marginalizados. Eu acho que não abrangem, que os problemas são separados.
Você perguntou por quê não sistema de cotas para todos os pobres. Já existe uma tentativa de fazer isso, são as cotas para alunos de escolas públicas e, como eu disse, sou a favor também delas. Só que como acho que isso resolve um problema e não outro, sou a favor que além dessas cotas também haja cotas raciais.
Agora, eu realmente não entendi por quê você acha que é impossível falar de racismo sem voltar ao passado. Voltar ao passado pode ser até útil para entender as origens do racismo, mas para encontrar soluções interessa é debater o presente mesmo – que mecanismos existem hoje que mantêm o racismo? Essa é que é a pergunta importante.
Também não entendi por quê você acha que falar de vantagens que pobres brancos têm sobre pobres negros é imputar aos primeiros alguma culpa. Não se pode reconhecer que um grupo tem vantagens injustas sobre outro e que essas vantagens devem ser redistribuídas sem imputar culpa a ninguém? Eu acho que pode. E claro, lembrando que no contexto desse post eu estou falando especificamente sobre racismo, mas isso não quer dizer que problemas de classe devam ser preteridos em favor desse – eu sou a favor é de tudo ao mesmo tempo, só não quis misturar assuntos num mesmo texto.
Obrigado a você pela discussão. 🙂
Olá Henrique, outro dia me peguei discutindo isso com um tio meu (mais radical que eu). Minha esposa (Shihane) que também é mais radical. Ah, só para lembrar, nós 3 somos negros…
Quando foi lançado a cota, eu e (quase) todos os negros na minha situação (por exemplo minha mãe, meu irmão e minha esposa) – ou seja, negros que não precisaram de cotas para cursar uma ótima universidade pública – éramos totalmente contrários às cotas.
Batíamos nessa mesma tecla de que a melhor solução é começar no ensino fundamental, dar oportunidades e apoio a família.
Mas de um dia para o outro, ouvindo uma entrevista de minha mãe (defendendo as cotas por motivos parecidos aos seus) me veio o estalo e daí minha opinião definitiva.
Essa proposta de estruturar a família e o ensino fundamental é utópica e a longuíssimo prazo (concordo inteiramente contigo quanto a não excludência das propostas e de ser medida paliativa).
Também penso que não devemos execrar a metodologia de cota (por tudo que você falou sobre equilibrar a porporção de negros na faculdade).
Mas também é preciso ver mais 2 pontos que você não tocou.
Eu me sentiria mal se entrasse por cota, tendo condições (como tive) de passar orgulhosamente pelo sistema habitual! E ainda cabe a pergunta: quem entra por cotas é ainda mais discriminado dentro da faculdade? Não sei… sinceramente!
E ainda há o argumento, que se ouve aos 4 ventos, de que quem entra pelo sistema de cotas, muito provavelmente terá feito o ensino médio mais fraco e por conseguinte terá imensa dificuldade para concluir a faculdade (se chegar até o fim), ou seja, não resolvendo o problema no cerne.
Penso que um passo atrás poderia ser dado. por exemplo cota no ensino médio em colégios bons e públicos (ok ainda sim é um paliativo)
Penso também que o argumento dos que não concordam com a cota (tirando esse da dificuldade em se formar) esbarra no ciclo do racismo (que você mostrou no quadrinhos)
Mas como disse acima, tendo condições prefiro dizer que me formei sem cotas (ok também pode ser considerado um racismo), apesar de defender as cotas.
Grande Abraço!!!
Oi, Vinícius
Então, é exatamente isso que eu penso quanto a políticas que atinjam estrutura familiar e ensino fundamental – utópicas e de longuíssimo prazo. O que não é dizer que não devam ser implementadas – devem sim, mas enquanto isso precisamos de políticas paliativas.
Sobre as duas questões que você trouxe:
– Também não sei se quem entra por cotas é discriminado na faculdade. Diria que não, mas não sei. O que acho é que isso não deve ser levado em consideração para se tomar uma decisão sobre as cotas. Não se pode deixar o preconceito de alguns grupos decidir a vida de todos. Além do mais, preconceito nunca é racional – as pessoas que se aproveitariam desse motivo para agirem de forma preconceituosa provavelmente já agem assim antes, só talvez de forma mais velada. E claro, se a pessoa tem condições de entrar pelo sistema habitual, ótimo! Nada a obriga a entrar pelas cotas.
– Essa outra questão que, você tem razão, é alardeada aí aos quatro ventos, de que os cotistas têm pior desempenho ou maior taxa de evasão é um mito. Veja por exemplo essas reportagens:
http://bit.ly/cVs9rZ (“A diferença entre o desempenho de alunos não-cotistas e cotistas durante a vida acadêmica é irrelevante.”)
http://bit.ly/brIcEM (“o desempenho médio dos alunos… do sistema de cotas é superior ao resultado alcançado pelos demais estudantes.”)
http://bit.ly/9R0FQx (esse ainda afirma “dentro da sala de aula há igualdade de tratamento, sem qualquer vestígio de discriminação”)
http://bit.ly/aeUfXB (“Resultados … divulgados pelo Ipea derrubam mito de que, graças à ação afirmativa, alunos negros estariam ‘entrando pela janela’ das instituições superiores da rede pública”)
E como essas há várias outras por aí que contrariam esse mito, é fácil de achar.
Abração, e obrigado pela discussão.
Ola Henrique,
Esbarrei com este texto, que acho que ecoa sobre o que vc esta falando aqui. Se quiser visitar, talvez goste. 🙂
http://matadornetwork.com/change/white-privilege-can-you-see-it/
Bom texto, Ruama. Valeu pela dica!
Eu tinha uma das restrições mais comuns às cotas raciais (que elas podem beneficiar um negro rico no lugar de um branco pobre), mas essa eu abandonei, por um argumento definitivo que ouvi de um negro na TV (não me lembro quem). O argumento é cristalino: ninguém questiona, por exemplo, as vantagens oferecidas aos idosos, dizendo que os idosos ricos também são beneficiados; ninguém questiona a meia entrada de estudantes por beneficiar também os estudantes ricos. Por que questionar as cotas por beneficiarem (em tese) negros ricos. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Esse argumento me convenceu, as cotas não são para remediar problemas de renda, mas de raça.
Por outro lado, mantenho algumas restrições. Concordo que uma solução de meia tigela (as cotas) é melhor que nenhuma, mas acho que um pouco de criatividade poderia melhorar a solução. Admitir pessoas na universidade com menos preparo (afinal se não for isso, não é preciso cotas) é baixar o nível (que já não é dos melhores) da universidade brasileira (alguns tentam sofismar que isso não é verdade, mas a lógica é irrefutável). Então por que, ao invés das cotas na universidade, dar cotas no ensino médio, ou, por exemplo, oferecer estudo com pagamento para os melhores alunos negros do ensino público, de modo que possam cobrir as lacunas e competir em igualdade. Sei lá, há muita gente boa que pode ter idéias melhores. Tudo bem, podemos ficar com as cotas até que as idéias surjam, mas não dá pra achar que seja uma solução.
Wagner, você tá partindo do princípio de que quem passa pior no vestibular necessariamente tem menos preparo que quem passa melhor. Só que se você for ver a imensa maioria do que se cobra numa prova de vestibular não é de conhecimentos necessários à carreira escolhida. Quando se pega as melhores notas nesse processo seletivo está se escolhendo as pessoas mais preparadas para fazer uma prova sobre assuntos arbitrários, não as mais preparadas para a vida acadêmica ou profissional. Além disso, quando você diz que essa lógica é irrefutável, suponho que você não tenha visto as evidências contrárias, né? Ou seja, pesquisas feitas pelas próprias universidades que adotaram cotas mostrando que cotistas têm desempenho acadêmico igual ou ligeiramente superior a não-cotistas.
Obrigada. Grata por colocar lógica e argumentos onde eu só tinhas sensações e impressões. Também eu prefiro a solução de meia tigela a problema original inteirinho.
Ficaria muito surpreso se as universidades que adotaram cotas não apresentassem pesquisas que as aprovassem, refutando um possível desnível entre cotistas e não cotistas. É só conhecer um pouquinho de como se faz uma pesquisa pra saber que, nesse pouco tempo de cotas, você pode chegar a conclusão que você quiser sobre o assunto com os poucos dados disponíveis e questões tão subjetivas como preparo, capacitação, desempenho, etc.
Mas o ponto não é esse. Ora, se, como você falou, o preparo requerido no vestibular não está relacionado com a carreira, e não há diferença nenhuma entre quem passa e quem não passa, então pra que catzo serve o vestibular?
Se partimos do princípio que o processo de seleção está errado (e talvez esteja mesmo, ou pelo menos não seja o melhor) então a discussão está fora do eixo. Vamos parar de brincadeira e fazer como num show ou jogo, quem chegar primeiro pega a vaga da faculdade. Ou outro critério qualquer. Aí com certeza as cotas fariam mais sentido, pois realmente não haveria diferença nenhuma entre cotistas e não cotistas.
Wagner,
Não acho o tempo de cotas tão curto assim, algumas universidades já usam o sistema há seis, sete anos ou mais. Considerando a quantidade de pessoas que entram por semestre numa universidade grande acho que já deu sim pra coletar uma quantidade razoável de dados. E até onde eu vi essas pesquisas usam dados objetivos, como a porcentagem de cotistas e não-cotistas que abandonaram o curso no nº período, ou a porcentagem de reprovação nas disciplinas obrigatórias iniciais entre cotistas e não-cotistas.
E se você quer minha opinião sincera sobre o vestibular, eu acho que ele atende basicamente a dois propósitos: garantir o acesso das classes mais favorecidas à universidade e alimentar a ilusão de que existe alguma forma de meritocracia. Não é dizer que esses sejam os objetivos do vestibular, mas considerando o vestibular sem cotas acho que é isso que acontece.
Se bem que o vestibular ainda cumpra a função de eliminar os candidatos que realmente não têm nenhum preparo e não teriam condições de acompanhar o ensino na universidade. O que acontece é que depois desse corte ainda sobra tanta gente pra pouca vaga que a seleção entre essas pessoas acaba sendo arbitrária.
Henrique, apesar de já ser a favor das cotas, seu texto fortaleceu a minha convicção e me fez ver com mais clareza a importância dessa medida (além de servirem pra rebater os argumentos tão comuns das pessoas anti-cotas, coisa que não sabia bem como fazer).
Compartilho totalmente da opinião de que é melhor uma “solução de meia-tijela” que nenhuma. Cotas não vão acabar com a desigualdade racial, nem mesmo com a desigualdade de acesso à universidade (entre negros e brancos e entre alunos de escolas públicas e privadas). Mas já são melhor que nada, sem dúvida.
ps: descobri seu blog pelo guest-post na Lola (o qual adorei, aliás) e, pelo jeito, já virei fã! 🙂 vou te seguir no twitter, ok?
Abraço!
Oie ^^
Vim dar uma curiada no seu blog menino.
Muito bom os seus argumentos! melhor ainda foi o “conto de fadas” rs
Esteve na Finlândia a trabalho?
*_* vc é egoista não quer dividir os salmiakki comigo rs.
abçs.
Niemi
Oi, Niemi, obrigado pela visita!
Eu fui pra Finlândia só porque gostava de lá, daí acabei conseguindo arranjar um trabalho e fiquei um pouquinho.
Salmiakki pra mim é que nem escova de dente – pessoal e intransferível. :p
Abraço!
Henrique, seus argumentos são muito louváveis. Não aguento esse pessoal que diz que “não pode se responsabilizar por uma dívida do passado”. Curioso,né?! Se fosse o contrário, estariam cobrando, e muito caro, até hoje. Aliás, não me admiraria se ouvisse algum branco falando por aí, que as outras raças tem uma dívida de gratidão eterna para com os brancos, uma vez que, “Cabral era branco”. (Não ri não! Estamos quase lá!)
Agora falando sério. Concordo com o sistema de cotas mas…acho estranho o critério de avaliação que define se um candidato tem direito ou não às cotas. O que vc acha? Vc conhece aquele caso dos gêmeos, em que um teve direito outro não?
Oi, Clara!
Pois é, como já falei em outro comentário aqui, essa de não se responsabilizar por uma dívida do passado é uma forma de desviar o assunto. O problema não é o que se fez no passado, são as conseqüências que isso têm no presente, beneficiando injustamente as pessoas brancas.
Esse caso dos gêmeos é um que o pessoal contrário às cotas adora citar como “prova” de que o sistema não funciona. Só que a grande maioria das universidades adota a auto-declaração como único critério de inclusão (veja esse artigo, por exemplo – http://bit.ly/bgIVB3 ) e acha que está indo muito bem. Agora, é claro que pode ser que esse critério seja abusado, e entendo que uma universidade queira criar um mecanismo para impedir que pessoas brancas entrem pelas cotas. Sim, claro que isso também gera problemas, mas é como eu disse no post – o sistema está longe de ser perfeito e contém muitos erros. Apesar disso, faz muito mais bem do que mal. O que me irrita nesse caso dos gêmeos é que o pessoal (não você, claro) usa isso para silenciar o debate – pegam um caso marginal, que é uma exceção de um sistema que é uma exceção entre os sistemas, retiram-no do contexto e exibem-no como se fosse a prova definitiva de que as cotas não funcionam.
Ola a todos,
voltei aqui porque varios vieram aqui pra dizer que falar de “estruturar a família e o ensino fundamental” eh utopico. Realmente ninguem aqui saiu das medidas paliativas quanto as desigualdades impostas aos negros. O imediatismo nem sempre vai solucionar os problemas do Brasil. Muito menos um problema desse tipo, que ja se arrasta ha tantos anos.
Apenas um leitor (que se identificou como negro) da discutida classe aqui nao se beneficiou do sistema de cotas, mas concorda com a medida. Da pra alguem me contar de algum conhecido que realmente tenha se beneficiado de cotas, e que tenha relatado a maravilha que isso fez a vida dele(a)? Eu gostaria de ouvir de pessoas que tenham se beneficiado das cotas, que tenha conquistado novas oportunidades na vida porque ingressou no ensino superior e que nao sofre mais discriminacao. De repente, cotas eh tudo o que ha? Peco mais criatividade nas discussoes!
Ruama, fiquei com a impressão que você continua criando uma falsa dicotomia. Cotas não excluem soluções de longo prazo. Tá certo que imediatismo não vai resolver o problema totalmente, mas ninguém falou isso. Resolve uma parte do problema, e precisamos resolver essa parte também.
Eu não conheço pessoalmente nenhuma pessoa que tenha se beneficiado das cotas, a universidade que fiz não as adotava. Mas não entendi, você tem dúvida de que pessoas que só têm acesso à universidade pública pela política de cotas conquistem com isso novas oportunidades?
Henrique,
Nao pretendia incomodar, mas ja incomodando: Desculpe. Vou encerrar por aqui minhas consideracoes.
Nao estou voltando no que vc chama de falsa dicotomia. Se o assunto eh cotas, pq esta sendo rebatida a ideia de estruturar familias e o ensino fundamental como utopica?! Se o assunto eh cotas e os direitos dos negros, deixem a ideia “utopica” dos outros de lado. No entanto a discussao nao saiu do lugar comum.
Quanto a falar de alguem que entrou nas universidades publicas por meio de cotas: essa discussao nos levaria a um lugar mais interessante se realmente conhecessemos casos de pessoas que falassem da sua experiencia pessoal sobre como se beneficiaram do tal programa. Afinal, se ja passaram-se aproximadamente 6 a 7 anos do programa de cotas, ja poderiamos estar aprendendo um pouco sobre a eficacia das cotas – nao ainda conjecturar. Quanto a se eu penso que somente os negros cotistas tiveram oportunidades na vida… acho que ja passamos dessa fase da discussao.
Deixo aqui um voto de que esta discussao desperte mais participacao da comunidade negra (ou afro-brasileira)… que os negros sejam mais unidos e engajados.
Ruama,
Sim, o assunto principal é cotas. Você foi a primeira a comentar e falou em medidas no ensino médio, fundamental, famílias, etc. de uma forma que eu entendi como você sendo a favor dessas medidas e contra as cotas. Eu discordei, dizendo que sou a favor das duas coisas.
O Vinícius foi o primeiro a usar a palavra ‘utópico’ e dentro da mesma frase ele disse que concordava que uma coisa (cotas) não excluía a outra (medidas de mais longo prazo). A partir daí usei a palavra também. Pelo que vi, em nenhum momento ele, eu ou outra pessoa rebatemos a idéia de que essas medidas são necessárias, o que rebatemos é que são suficientes.
Eu não perguntei se somente os negros cotistas tiveram oportunidades, perguntei se pessoas que só puderam estudar por causa das cotas tiveram maiores oportunidades depois. E não tenho nenhuma dúvida de que sim, mesmo sem conhecer pessoalmente nenhum caso.
Pode ser que só uma pessoa negra tenha comentado aqui (na verdade não sei a raça das outras comentaristas), mas essa discussão é muito maior que meu blog, né? Não faltam pessoas negras participando dela. E sobre como pessoas negras devem ou não ser e em quê devem ou não se engajar não acho que caiba a mim dar palpite.