Aonde Vai a Estrada

Água

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Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho nadando no sentido contrário.

O peixe velho diz: ‘Bom dia! Como é que está a água hoje?’

Pouco depois um dos peixes jovens se vira pro outro e pergunta: ‘Mas que diabos é água?’

A Lola, que tem um dos melhores blogs feministas brasileiros, está agora promovendo um concurso de blogueiras com o tema ‘A origem do meu feminismo’. Como ela abriu a possibilidade para homens escreverem um guest post sobre o assunto, decidi mandar esse texto pra ela e já vou publicando por aqui:

Antes ela até já tinha me perguntado se eu queria escrever um guest post falando sobre a descoberta dos meus privilégios e eu disse que claro que sim, mas depois tentei e o texto não saiu, foi difícil pra mim escrever sobre isso. Mas aproveito a oportunidade para tentar de novo, porque esses temas para mim são o mesmo – a origem do meu feminismo é a descoberta dos meus privilégios. E não poderia ser de outra forma, porque descobrir que eu tenho vantagens sociais por ter características que eu não escolhi ter às custas das desvantagens de quem não as tem não me abre mais espaço para ficar em cima do muro – nesse contexto ser feminista é necessário. É antes de tudo uma questão humanista – é ser pela aceitação de cada pessoa exatamente como ela é; é ser pela igualdade de tratamento, de respeito, de oportunidade e de liberdade; é ser contra qualquer tipo de preconceito ou privilégio de um grupo sobre outro. Isso inclui não só machismo, homofobia e transfobia, que são todos preconceitos ligados a expectativas de como deve ser uma mulher e como deve ser um homem, mas também racismo, classismo e qualquer outro ismo que talvez não tenha nome, mas tem quem pratica e tem quem sofre.

Um dos meus motivos de dificuldade em falar sobre esse assunto é que eu sou feminista bem recente, talvez há um ou dois anos, e eu tenho vergonha de ter passado tanto tempo sem entender direito o que era preconceito, de ter passado tanto tempo cego aos meus privilégios. Há várias razões pra isso ter acontecido. Uma delas é que, como escrevi aqui no primeiro post, eu praticamente acertei na mega-sena dos privilégios. Eu basicamente não faço parte de nenhuma minoria. Eu sou, dentro do meu contexto social, o ser humano padrão. E é muito fácil e muito confortável ser o humano padrão, porque tudo está preparado pra mim, todo o mundo me trata bem à primeira vista. Eis aí um homem branco cisgênero heterossexual jovem magro etc., só pode ser boa gente! E como deve acontecer com a maioria das pessoas, não me lembro de ninguém ter tentado me ensinar a enxergar o ponto de vista dos outros, ou pelo menos não antes de eu entrar na faculdade de psicologia, claro que eu enxergava o mundo em cor de rosa.

Houve várias pessoas que eu li e com quem conversei que me influenciaram e foram me levando a descobrir meus privilégios, mas um momento em particular que eu considero o ponto de mutação me salta à memória pelo choque que me provocou. Era algo que eu estava lendo a respeito do uso em inglês da palavra ‘gay’ para dizer que algo é ruim, e o pessoal discutia se isso era um comportamento homofóbico ou não. Em determinado momento, alguém postou um link que tinha como título ‘lista de privilégios heterossexuais’, que era uma longa lista de pequenas coisas em que uma pessoa leva vantagem por ser heterossexual. Até aí não tinha caído a ficha, eu fui lendo a lista e pensando ‘não entendi o que querem dizer, são coisas tão banais, não dá para chamar isso de preconceito’. Mas um ponto lá me atingiu. Dizia ‘Eu não tenho que defender minha orientação sexual’. E eu pensei – as pessoas fazem coisas assim comigo por eu ter virado vegetariano – e pensei como eu me sentia mal com isso, não por ser algo gravíssimo, mas por ser sistemático, por ser tão freqüente as pessoas tentarem me provar que ser vegetariano não é lógico que mesmo que nenhuma pessoa faça por mal o efeito conjunto é algo como se repetissem sempre: nós somos normais e você é o outro, você não vale tanto quanto nós. E eu pensei como devia ser de esmigalhar o espírito de qualquer um ter que diariamente em várias pequenas coisas encontrar esse tipo de mensagem. E nesse momento eu caí em mim, reli a lista e percebi que no meu dia a dia eu contribuía em vários pontos com esse sistema violento. Sem me dar conta, e ainda achando que claro que não tinha preconceito nenhum contra pessoas homossexuais. A partir daí comecei a ler mais sobre preconceito, acabei conhecendo vários blogs feministas e notei que aí também eu tinha problemas, que eu ainda achava que havia coisas de homem e coisas de mulher, que eu ainda julgava mais uma mulher em função de sua aparência do que um homem, que eu via uma mulher que achava feia e automaticamente, meio sem querer, pensava ‘coitada! nunca vai arranjar namorado’ como se minha opinião fosse universal ou relevante, ou como se arranjar namorado fosse a coisa mais importante da vida de uma mulher. Assim com relação a cada minoria fui descobrindo uma nova série de privilégios e preconceitos que eu tinha, uma nova série de pequenas coisas que eu fazia de forma sistemática e que contribuíam para marginalizar um grupo de pessoas. E eu vi que a principal razão por eu não enxergar nenhum preconceito antes era que eu estava tão mergulhado nele que ele tinha sido normalizado, tinha virado o pano de fundo contra o qual eu via todas as coisas.

Eu me senti um bocado culpado por tudo isso, por não ter me dado conta antes, por ter sido tão violento com as pessoas, mas depois fui me dando conta que eu também não tinha escolhido ter privilégio nenhum, que não tinha escolhido construir essa cultura, que culpa não serve para nada a não ser gerar paralisia e abandonei esse sentimento. Aproveitando a leveza, decidi também pegar responsabilidade por isso tudo, porque agora sim, de olhos abertos eu podia escolher se queria contribuir para sustentar ou erodir aspectos culturais que são preconceituosos. Decidi que ser feminista pra dentro não era suficiente, que precisava ser também feminista pra fora e buscar (e continuo buscando e encontrando) formas de agir. Tem gente que me critica por isso, fala que eu não vou conseguir mudar nada, que isso é muito utópico. Ok, é claro que sei que eu como pessoa minúscula em comparação ao enorme monte de coisas erradas não tenho lá muito poder de mudança. Mas eu não preciso fazer coisas enormes, posso fazer coisas minúsculas. Assim como eu mudei radicalmente meu ponto de vista, outras pessoas também podem mudar. Às vezes só o que falta para uma pessoa mudar é ela escutar vozes dissonantes. E eu tenho voz.

P.S.: O discurso do post – original e, pra quem não lê inglês,  traduzido.

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