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Archive for junho \10\UTC 2010

No último post eu disse que não queria mais chamar nenhuma mulher de feia. Teve gente que ficou confusa, falou que não achava problema nenhum em chamar homem de feio, uma pessoa disse que achou o texto bonito mas ficou meio na dúvida se ainda podia chamar alguma coisa de bonita, várias pessoas me chamaram de radical e eu fiquei confuso também – mas será? Tô ou não tô exagerando? Daí me retirei daqui por um tempo e fiquei matutando esse assunto, a ver se chegava a alguma conclusão. E afinal decidi, de novo, que são coisas bastante diferentes chamar uma mulher de feia, um homem de feio e um objeto ou conceito de feio. A ver se me explico:

O primeiro ponto fundamental para estabelecer essa diferença é que as mulheres são minoria. Quando digo isso é claro que não estou falando no sentido numérico da palavra, já que a quantidade de mulheres é mais ou menos equivalente à de homens, mas sim que as mulheres têm menos poder social, ou seja menos respeito, menos oportunidade, menos etc. Não vou ficar tentando provar isso definitivamente, mas tenho algumas pequenas ilustrações:

– Existem algumas profissões que são consideradas tipicamente masculinas (ex.: engenheiro) e algumas outras que são consideradas tipicamente femininas (ex.: enfermeira). Coincidentemente ou não, as profissões consideradas masculinas costumam pagar mais e dar melhor status social que as profissões femininas. E se uma mulher quiser entrar numa profissão masculina ela pode, mas vai ter de se esforçar muito mais para provar que pode competir com os homens. Se um homem quiser entrar numa profissão feminina ele pode, mas vai estar se rebaixando socialmente.

– Existe uma diferença significativa entre o salário médio de uma mulher e de um homem, mesmo quando se compara mulher e homem com mesma idade e mesmo grau de instrução. A desvantagem é da mulher, claro (essa pesquisa estima a diferença brasileira em 30%). Em parte isso é causado pela escolha de carreira (já que as mulheres são incentivadas a seguir profissões femininas, que pagam menos e o contrário vale para os homens) mas não só, já que freqüentemente ainda as mulheres ganham menos que os homens mesmo desempenhando a mesma função. Está na câmara um projeto de lei proibindo isso, mas parece que ainda não foi aprovado.

– Ainda existe a expectativa geral de que as mulheres sejam exclusivamente responsáveis pelos serviços todos de manutenção da casa, quem tiver dúvida sobre isso só precisa assistir a comerciais de produtos de limpeza, que sempre trazem mulheres. Ou quase sempre, mas quando têm homens é para o homem mandar a mulher fazer o serviço.

Um dos aspectos dessa desvantagem social é a forma como as mulheres são muitas vezes tratadas mais como objetos que como pessoas, e uma das manifestações dessa objetificação é a cobrança permanente para que a mulher esteja bonita. Pense, por exemplo, em como uma mulher usar maquiagem, pintar o cabelo, se depilar etc. é equiparado a ‘se cuidar’, quando nenhuma exigência semelhante é feita aos homens. Ou pense em como quando um homem usa um sapato que lhe machuca o pé o sapato é considerado defeituoso, enquanto pra mulher machucar o pé é um sacrifício aceitável para estar bonita. Ou pense em quantas gírias existem para dizer que uma mulher é feia e como essas gírias são consideradas graves insultos, depois pense em quantas gírias existem para dizer que um homem é feio. Ou pense nessa historinha que vou contar:

Tinha um fórum de discussão que eu freqüentava que também era freqüentado por uma mulher que era super gente boa. Um dia ela contou que tinha muitos amigos virtuais, mas que tinha medo de encontrá-los cara a cara porque várias vezes ao encontrar um amigo virtual ele tinha dito que não podia ser amigo dela porque ela era feia demais e ele tinha medo de ser visto em sua companhia, que é que os outros iam pensar? E se pensassem que ele era namorado dela? Então o amigo abandonava ela.

Essa é uma situação que eu considero altamente violenta. Imagino como deve se sentir uma pessoa que escuta de um amigo que ela não tem aparência boa o bastante para ser vista em público perto dele. E que escuta isso repetidamente, a ponto de ter medo de encontrar os amigos. E eu não imagino isso acontecendo com um homem, porque pra mim o que possibilita esse tipo de situação é exatamente essa cultura de objetificação da mulher que diz que o valor dela está ligado à beleza. E quando eu chamo uma mulher de feia não importa tanto o que eu quero dizer, nem se minhas intenções são inofensivas, pra mim o que importa é que isso não pode ser dissociado dessa pressão cultural para as mulheres serem bonitas. Por seus efeitos e por suas premissas, eu considero essa parte da cultura violenta, então não, não quero mesmo chamar mulheres de feias.

E aproveitando o assunto de uso violento da linguagem, vou falar aqui de um programa que eu vi outro dia, que tá passando em não sei qual canal de TV por assinatura, chama America’s Next Top Model. Aparentemente a temporada que está sendo exibida agora no Brasil é uma temporada antiga, mas não importa, finge que é nova. No primeiro episódio desse que é um reality show de competição de modelos, foram lá várias candidatas para que a dona do programa e mais dois juízes selecionassem quais iam participar mesmo do programa. Uma dessas modelos é transgênero, ou seja, quando nasceu disseram que ela era homem, mas segundo o que ela falou ao programa, ela sempre teve certeza de que é mulher. Não sei não, mas se tivesse uma competição para ver quem sofre mais preconceito, eu ia no meu bolão apostar pesado nas mulheres transgênero. Eu nunca vi uma mulher transgênero passar na rua ou na televisão sem que quase todo o mundo achasse necessário olhar esquisito para ela, dar risinhos ou fazer uma piadinha, geralmente o pessoal faz questão também de dizer que não considera aquela mulher como mulher. Voltando ao exemplo do programa, claro que as modelos cisgênero falaram super mal da transgênero que estava competindo com elas, mas mais chocante pra mim foi a reação da dona do programa. Primeiro a dona quando tava entrevistando essa modelo, resolveu que era pertinente perguntar se ela havia operado ou não os genitais. Eu não sei não, mas me parece bastante violento perguntar a uma pessoa que era na prática uma candidata sendo entrevistada para um emprego sobre que aparência têm seus genitais. Se ela fosse cisgênero alguém consideraria esse tipo de pergunta aceitável? Se chegasse lá a pessoa que vai possivelmente contratá-la e perguntasse – mas diz aí, qual o diâmetro da tua vagina?

E como se isso ainda fosse pouco, depois o programa mostra um dos juízes falando sobre essa modelo, dizendo que ela estava se esforçando muito para ser mulher. Claro que o cara não deu a mínima para o que ela tinha dito, que sempre sem sombra de dúvida soube ser mulher, que interessa a opinião dela? Interessava mesmo era a dele, que não a considerava mulher de verdade, ou será que ele também achou que alguma modelo cisgênero estava se esforçando muito para ser mulher? Muita gente não deve entender isso (como eu também demorei muito a entender, aliás) porque a maioria não passa por esse tipo de problema, mas um dos aspectos mais fundamentais da identidade de uma pessoa é a identidade de gênero. E essa identidade continua sendo sistematicamente roubada das pessoas transgênero, principalmente das mulheres, porque os homens transgênero na maioria das vezes não são identificados pelos outros.

Enfim, pra mim essa questão se resume em três perguntas muito fáceis de responder. Em primeiro lugar, o que é uma mulher? Mulher é um corpo que tem a peça X em vez da peça Y ou mulher é a parte invisível que tá ali dentro, sendo aquele corpo? Ou mais importante que essa pergunta, quem é o dono da linguagem? A linguagem é de domínio exclusivo da maioria e a minoria tem que engolir a forma como determinarmos que ela deve ser usada ou a minoria também tem o mesmo direito à linguagem? E mais importante ainda, como eu quero usar a minha linguagem? Eu quero usá-la para excluir socialmente um grupo de pessoas que só é diferente de mim em um aspecto insignificante, apesar dessa exclusão não me trazer nenhuma vantagem ou eu quero usar minha linguagem para incluir todo o mundo e reconhecer que o direito tem que ser igual pra todo o mundo?

E pronto, continuo assim meu projeto radical de usar minha linguagem de forma cada vez menos violenta.

P.S.: O diálogo do post.

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