Uma história: Mais ou menos uns dois anos atrás, eu hospedei aqui em casa uma finlandesa chamada Marjaana que queria conhecer o Rio de Janeiro (eu hospedo pessoas desconhecidas de graça, um dia escrevo sobre isso). Ela passou só três dias aqui em casa, mas às vezes até hoje eu mudo uma maneira de pensar e me dou conta depois que o primeiro contato significativo que eu tive com a idéia nova foi através dela. Lembro que num dia a gente estava passeando pela cidade e não sei por quê eu falei que uma mulher qualquer era feia. Aí ela me olhou estranho e disse ‘Como é que você tem coragem de chamar uma mulher de feia?’ Eu fiquei meio ‘hein, como é?’, e expliquei como costuma explicar quem não sabe muito bem o que está falando ou por quê – repetindo tudo: ‘Ué, ela é feia, quer dizer que não é bonita, ou que tem uma aparência ruim, ou que não me agrada, ou… feia é feia, ué, sei lá!’. Aí perguntei se ela nunca achava as pessoas feias. E ela falou que não.
Outra história: Estava lá em Helsinki, acabado de chegar, não tinha ainda onde morar e estava hospedado na casa duma pessoa que conheci lá, que também estava hospedando um estadunidense. Fomos os três sair numa sexta à noite, pra um bar que tinha também sua pista de dança, com DJ tocando música alta e tal. Eu fiquei meio à parte, porque os dois objetivos principais da maioria das pessoas que vão a esse tipo de ambiente (arranjar um par e dançar) quase nunca coincidem com os meus, que gosto muito mais de ficar observando as pessoas. Daí lá pelas tantas chega o estadunidense pra mim, aponta para duas mulheres que eu não tinha notado e pergunta: ‘Você quer dançar com aquelas garotas ali?’ Quê? Não quero não, passo. ‘Pô, cara! Vamos lá dançar com aquelas garotas, elas são bonitas!’ Vou não, vai tu. E deu pra ver pela reação dele que ele estava totalmente seguro que eu diria sim e iria lá com ele. Como essa situação, já passei por várias outras em que as pessoas quiseram me empurrar para cima de alguma mulher que não conheço. Às vezes é uma mulher específica que acharam bonita, outras vezes só querem que eu dê em cima de uma mulher qualquer, porque é isso que os homens têm que fazer.
Para explicar o que eu acho disso, vai me ajudar um quadrinho:
E aí eu volto à pergunta da Marjaana, e penso de novo no que eu estou dizendo quando falo que uma mulher é feia. Em primeiro lugar, estou dizendo que a aparência dela não me agrada, mas e daí? Quem disse que ela tem que me agradar? E não é só isso, porque existe na sociedade em que eu vivo um padrão de beleza que as mulheres têm que atender, existe uma aparência feminina que é consierada certa e boa, e uma grande parte do valor que é atribuído a uma mulher vem do quanto ela consegue se aproximar desse padrão. Agora eu escuto a pergunta que ela fez assim: “Como é que você tem coragem de dizer que uma mulher não te agrada porque não tem a aparência certa, e que isso está errado e faz ela ter menos valor porque ela existe só pra você?” Não posso, que não me ouçam mais dizer Feia! de nenhuma mulher.
P.S.: A cena do post.