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Archive for abril \30\UTC 2010

Uma história: Mais ou menos uns dois anos atrás, eu hospedei aqui em casa uma finlandesa chamada Marjaana que queria conhecer o Rio de Janeiro (eu hospedo pessoas desconhecidas de graça, um dia escrevo sobre isso). Ela passou só três dias aqui em casa, mas às vezes até hoje eu mudo uma maneira de pensar e me dou conta depois que o primeiro contato significativo que eu tive com a idéia nova foi através dela. Lembro que num dia a gente estava passeando pela cidade e não sei por quê eu falei que uma mulher qualquer era feia. Aí ela me olhou estranho e disse ‘Como é que você tem coragem de chamar uma mulher de feia?’ Eu fiquei meio ‘hein, como é?’, e expliquei como costuma explicar quem não sabe muito bem o que está falando ou por quê – repetindo tudo: ‘Ué, ela é feia, quer dizer que não é bonita, ou que tem uma aparência ruim, ou que não me agrada, ou… feia é feia, ué, sei lá!’. Aí perguntei se ela nunca achava as pessoas feias. E ela falou que não.

Outra história: Estava lá em Helsinki, acabado de chegar, não tinha ainda onde morar e estava hospedado na casa duma pessoa que conheci lá, que também estava hospedando um estadunidense. Fomos os três sair numa sexta à noite, pra um bar que tinha também sua pista de dança, com DJ tocando música alta e tal. Eu fiquei meio à parte, porque os dois objetivos principais da maioria das pessoas que vão a esse tipo de ambiente (arranjar um par e dançar) quase nunca coincidem com os meus, que gosto muito mais de ficar observando as pessoas. Daí lá pelas tantas chega o estadunidense pra mim, aponta para duas mulheres que eu não tinha notado e pergunta: ‘Você quer dançar com aquelas garotas ali?’ Quê? Não quero não, passo. ‘Pô, cara! Vamos lá dançar com aquelas garotas, elas são bonitas!’ Vou não, vai tu. E deu pra ver pela reação dele que ele estava totalmente seguro que eu diria sim e iria lá com ele. Como essa situação, já passei por várias outras em que as pessoas quiseram me empurrar para cima de alguma mulher que não conheço. Às vezes é uma mulher específica que acharam bonita, outras vezes só querem que eu dê em cima de uma mulher qualquer, porque é isso que os homens têm que fazer.

Para explicar o que eu acho disso, vai me ajudar um quadrinho:

She's perfect. I'll take two.Esse é do site A Softer World, não tem título e traduzo assim: “Ah, o amor à primeira vista. Quando você vê uma pessoa tão bonita que esquece que ela não existe só pra você.” O quadrinho fala de amor à primeira vista, mas pra mim serve tão bem se trocar o amor por atração. Porque em primeiro lugar, nessas situações nunca se sabe nada sobre interesses, pensamentos, opiniões, vontades, personalidade ou vida da mulher. O que se sabe é só sobre a aparência. E, existindo tanta coisa que faz uma mulher ser humana, considerar primordialmente o único atributo que a faz comparável a um objeto, é esquecer que aquela mulher não existe só pra você. E em segundo lugar, raramente nessas situações se leva em conta o que a mulher quer. Quantas vezes não quiseram me empurrar pra cima duma amiga de uma amiga e em nenhum momento perguntaram a ela se ela queria isso ou não. E quando a mulher reage aos avanços do homem de forma negativa, quantas vezes não é considerado certo o homem continuar insistindo, e dizem que ele tem que ‘conquistar’ a mulher. Usar essa palavra, que implica luta, como se a vontade contrária da mulher fosse um inimigo a ser vencido, é esquecer que ela não existe só pra você.

E aí eu volto à pergunta da Marjaana, e penso de novo no que eu estou dizendo quando falo que uma mulher é feia. Em primeiro lugar, estou dizendo que a aparência dela não me agrada, mas e daí? Quem disse que ela tem que me agradar? E não é só isso, porque existe na sociedade em que eu vivo um padrão de beleza que as mulheres têm que atender, existe uma aparência feminina que é consierada certa e boa, e uma grande parte do valor que é atribuído a uma mulher vem do quanto ela consegue se aproximar desse padrão. Agora eu escuto a pergunta que ela fez assim: “Como é que você tem coragem de dizer que uma mulher não te agrada porque não tem a aparência certa, e que isso está errado e faz ela ter menos valor porque ela existe só pra você?” Não posso, que não me ouçam mais dizer Feia! de nenhuma mulher.

P.S.: A cena do post.

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As mad as hell

Ok, criei coragem e vou começar um novo blog. E antes de outra coisa qualquer, tenho uns negócios que preciso dizer aqui.

Tinha uma época, até pouco tempo atrás, em que eu fazia parte de praticamente tudo o que é maioria, vê só: eu era homem, era cisgênero, era branco, era heterossexual, não tinha nenhuma deficiência física (nem mental), ainda era considerado jovem, tinha crescido na zona sul do Rio de Janeiro, era magro, sei lá do que mais estou esquecendo. Nessa época, eu achava que não existia muito preconceito por aí. Quero dizer, eu sabia que existiam pessoas preconceituosas, mas na minha opinião bastava resolver esses casos isolados adequadamente e pronto, tudo ficava certo de novo. De todos os privilégios que uma pessoa tem por ser maioria, esse é um dos melhores – poder acreditar genuinamente que, fora poucas exceções, há respeito igual, direitos iguais e oportunidades iguais pra todo o mundo. De algumas dessas maiorias uma pessoa até pode sair (ou entrar) ao longo do tempo, mas eu continuo sendo parte de todas elas. Aconteceu foi que por umas pequenas coisas eu passei a não ser mais tão maioria assim:

Primeiro eu virei vegetariano, e deixei de ser uma pessoa igual a todo o mundo, que comia de tudo, e fiquei sendo um cara ‘fresco’ (não gosto dessa palavra, mas a uso aqui porque é disso que me chamam) que prefere às vezes não almoçar e continuar com fome a comer o arroz que ‘tem só um pouquinho de carne’.

Depois eu decidi que a faculdade de psicologia que eu tinha feito e a minha teórica carreira futura nessa área não me serviam e abandonei a profissão, então deixei de ser uma pessoa que ‘tinha um futuro pela frente’ e passei a ser um cara que estava ‘perdido’, ‘tendo uma crise de adolescência’ e ‘andando para trás na vida’.

Aí eu achei que já tinha passado tempo demais no Rio de Janeiro e precisava conhecer outros lugares, e fui viajando por aí sem rumo certo e sem data pra voltar, então deixei de ser uma pessoa que tinha casa, raízes etc. como toda pessoa de bem e passei a ser um cara ‘doido’, que ‘não se importa com as pessoas’ e por isso as ‘abandona’.

E acabei indo morar um tempo na Finlândia, então continuei sendo uma pessoa que tinha crescido na zona sul do Rio de Janeiro, mas lá isso não tinha significado nenhum, lá eu era só um imigrante não qualificado.

Não quero que pareça que eu considero comparáveis esses eventos com a discriminação bem mais pesada direcionada contra quem não faz parte das maiorias que citei ali em cima (na verdade acho que ser imigrante não qualificado se compararia, mas o fui por muito pouco tempo), mas pra mim essas mudanças alteraram drasticamente minha experiência pessoal do preconceito. Porque tudo bem, eu não sofri discriminação pesada nunca mas, como já disse, eu era parte de muitas maiorias e estava acostumado a não sofrer discriminação nenhuma, então essas mudanças me abriram uma janelinha para o outro lado e eu comecei a entender tudo diferente. Comecei também a ler um bocado sobre preconceitos – discussões intermináveis em fóruns, blogs feministas, hoje baixei pela primeira vez um livro sobre o assunto – e comecei a entender melhor.

Comecei a entender, por exemplo, como freqüentemente se rouba a identidade de uma minoria para manter a diferença de poder, porque não dar o direito a uma pessoa de se definir, de dizer exatamente quem e o quê ela é, deixa a pessoa confusa, solitária e enfraquecida. Se eu decidi virar vegetariano, isso não é quem eu sou agora, isso não é um passo para me aproximar mais de uma ética que eu considero desejável, os outros sabem que não tem nada a ver com ética – é pura frescura! Se eu abandonei minha profissão antiga em favor de um novo caminho, esse caminho não é quem eu sou agora, os outros sabem que o caminho certo é continuar na carreira – e se não estou andando para a frente só posso estar andando para trás! Se eu não quero ficar vivendo no mesmo lugar de sempre, se quero viver outras situações em outras culturas, isso é incompatível com me importar com meus amigos aqui, os outros sabem que
na verdade eu não me importo com ninguém, e provo isso abandonando todo o mundo! Eu não sei quem eu sou, os outros é que sabem e insistem em me dizer isso a todo momento…

Uma das histórias de me roubarem identidade mais fortes pra mim foi quando eu tava lá na Finlândia, trabalhando de braços e pernas para uma pessoa tetraplégica, acompanhando ela numa clínica de reabilitação no meio do mato. Ela ia receber a visita de um primo, que vinha dos EUA, e eu fiquei feliz por aparecer uma pessoa diferente com quem conversar, mesmo que só por uma tarde. Aí ele chegou, com as filhas de idade próxima da minha, as duas trabalhando em cargos de bom status social, fazendo pós-graduação, coisas assim, e estávamos ali conversando todos em inglês. Lembro que ele, vendo que eu estava num trabalho não qualificado, me perguntou se eu estudava e estava de férias, que planos tinha para quando acabasse meu contrato com o fim do verão, etc. Eu disse que não sabia, mas que não estudava e que não planejava voltar a estudar nada tão cedo, que ia ver se arranjava outro trabalho na Finlândia, se ia mudar de país, como é que ia ser. Aí ele me solta a pérola: “Mas ué, então o que você vai ser quando crescer?” Eu fiquei meio chocado, sem reação, pensando – o que esse cara tá querendo dizer? Aí minha chefe entendeu e respondeu: “Não, ele já estudou, ele é psicólogo”. E ele soltou um “Ah, sim” com aquele tom de alívio. Deixa eu repetir a ver se entendo: estava ali um completo estranho, que tinha acabado de me ver pela primeira vez na vida, que provavelmente nunca mais me veria de novo, que não sabia nada sobre mim a não ser o que eu acabara de contar e ele se julgou no direito de determinar o que era uma trajetória correta para minha vida e dizer na minha cara que se eu não estava seguindo uma trajetória próxima dessa, então era que eu ainda não tinha crescido! E ao saber que eu era psicólogo ele achou que entendeu quem eu era, porque o que define uma pessoa é a sua profissão, segundo o que ele tinha acabado de decidir sozinho. Então tá.

O pior dessa história aí em cima é que o cara parecia ser de outra forma uma pessoa completamente normal e razoável. Isso é outra coisa que levei um tempo pra entender: o preconceito que existe não é coisa de casos excepcional, é um negócio sistemático que vem de todo lado. Eu sou alvo em iguais proporções de pessoas que são minhas amigas e pessoas que não gostam de mim, de pessoas razoáveis e pessoas estúpidas, de pessoas que me conhecem desde pequeno e pessoas que acabaram de me ver pela primeira vez. Porque as estruturas sociais e culturais que fabricam e mantêm preconceito estão aí, e todo o mundo cresce debaixo delas e assim aprende a repeti-las, sem nem saber o que está fazendo. Quem não pensa sobre ou não se preocupa com isso repete sempre; quem pensa e se preocupa freqüentemente escorrega e repete. Mesmo as pessoas que são vítimas freqüentes.

Eu tinha planejado aqui vários exemplos pra ilustrar preconceitos (especificamente roubos de identidade) contra várias minorias, mas já ficou muito grande o texto e vou pôr um só:

Esse quadrinho é do XKCD, um site de quadrinhos que sempre leio. O título desse é “How it works”, ou “Como as coisas funcionam”, e minha tradução vai assim: na primeira parte, um homem escreve uma asneira matemática no quadro e outro homem diz: “uau, você é péssimo em matemática”, na segunda parte uma mulher escreve a mesma asneira e um homem diz: “uau, mulheres são péssimas em matemática”. Situação bastante comum, não? Vejo essa ou variações dela muitas vezes por aí. E olha como é nesse tipo de situação o roubo de identidade pelo uso de um estereótipo: o homem está livre, ele tem o direito de ser ruim em matemática sem que isso pese sobre nenhum outro homem, isso é apenas sobre ele e não determina outros aspectos de sua personalidade ou suas capacidades. Por outro lado, a mulher, ao ser encaixada num estereótipo, deixa de ser um indivíduo e passa a ser a representante de uma categoria. Assim, ela perde identidade em primeiro lugar por passar a ser associada com outros aspectos do estereótipo, além da habilidade matemática. Em segundo lugar, ela perde identidade pela atuação do estereótipo como profecia auto-realizadora, porque se uma pessoa é ruim em matemática, sempre pode ser que ela mude através de esforço ou ajuda, enquanto que se todas as mulheres são ruins em matemática, isso é da natureza delas e não adianta nem tentar mudar, ué. Em terceiro lugar, perdem identidade todas as outras mulheres, porque cata exemplo que atende um estereótipo é visto como prova de que ele está certo, e vai portanto fortalecê-lo e contribuir para que reflita e pese sobre todas as outras mulheres. Isso numa frase só, dita sem pensar.

E antes de sair do quadrinho, deixa eu apontar o dedo para outro aspecto dele: esse é claramente um quadrinho feminista, porque mostra uma situação preconceituosa comum e, por ressaltar o absurdo dessa situação, se posiciona contra ela. É também um quadrinho minimalista, os bonecos são de palitinho e nem rosto têm. Mas peraí – minimalista mesmo são os homens, a mulher é estabelecida como tal pela adição de cabelos. Os homens, nesse quadrinho, são absolutos; a mulher é relativa aos homens.
E não importa se o autor do quadrinho fez isso porque na cabeça dele o homem é que é o padrão de ser humano, ou se foi porque achou que na cabeça dos outros é que isso acontece e ninguém entenderia que a mulher é mulher se ela tampouco tivesse cabelos, ou até se foi por puríssimo acaso – quando ele fez o quadrinho assim, mesmo se foi sem querer e mesmo tendo denunciado uma estrutura preconceituosa, ele fortaleceu outra que também é preconceituosa.

Pronto, basta. Eu sei que estou sendo super-super-ficial aqui, mas eu vou escrevendo mais sobre isso, imagino. Um dia também escrevo a introdução a esse blog, que não é só sobre um assunto. A quem quiser ler mais sobre feminismo e preconceitos em geral, recomendo fortemente que leia a Lola se quiser ler um blog em português, que leia a Harriet se quiser ler um blog em inglês e que vá ao Feminista se quiser baixar livros e artigos.

Fora isso tudo, o que eu queria mesmo dizer é isso: eu sei perfeitamente que já roubei identidade de um monte de gente e já reforcei sem querer vários outros tipos de preconceito contra diversas minorias. Provavelmente ainda faço isso às vezes sem notar. Mas, a partir de agora, assumo responsabilidade por isso. Ainda não sei bem o que fazer com essa responsabilidade, mas acho que escrever isso aqui é um passo e aos poucos vou descobrindo outros. Enquanto isso, estou bravo pra caramba com esse negócio todo.

P.S.: O clipe do post.

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